Cachola é um lugarzinho que somente algumas pessoas conhecem, principalmente as crianças, porque é lá dentro - bem lá no fundo - que elas guardam os seus brinquedos invisíveis.
Para despertar qualquer um deles é preciso pouca coisa: um livro, uma história e aí, a imaginação se encarrega do resto. ''Bom dia, eu vou apresentar para vocês alguns brinquedos. Vou começar apresentando um invisível, que está dentro dessa história''.
Quem contou essa historinha para dezenas de crianças, no último final de semana, durante uma apresentação do espetáculo ''Muitos Dedos: Enredos (o rio de palavras deságua no mar de brinquedos)'', na loja Ciranda, foi o ator, escritor e educador Francisco Marques, que de tanto andar pelo mundo do faz-de-contas virou o Chico dos Bonecos.
Ele esteve na semana passada em Londrina, ensinando professores a tirar da cachola um montão de brincadeiras que estavam guardadas lá no armário da infância deles, durante uma oficina promovida pelo Sesc-Aeroporto. ''Mostro que essas coisas de brincadeiras têm uma enorme importância afetiva. A infância não é privilégio de criança. Os pequenos se interessam pelos brinquedos; não estão brincando, hoje em dia, porque não conhecem'', comenta Chico.
Então, o contador de história revelou o seu segredo, dizendo que dentro dessa história existe uma outra história. Com isso, Chico deu a deixa para todo mundo prestar atenção. E não foram só os 'pingos de gente' que se encantaram com a apresentação; muitos pais não conseguiram desgrudar os olhos dos brinquedos invisíveis.
''Nós gostamos mais ainda porque esse tipo de apresentação recupera as coisas da infância que, às vezes, ficam deixadas de lado'', comentou a professora universitária, Márcia Rorato, que levou o filho Angelo, seis anos, e a amiguinha do menino, Ana Clara Ribeiro Romanello, oito anos, para também tirar da cabeça as brincadeiras e o faz-de-conta.
Quando todo mundo se deu conta, caixinhas de fósforos grudadas por fitas se transformavam, na opinião das crianças, em pinguim, pipa, peixe, mas na brincadeira do Chico eram tudo o que a imaginação permitia: Uma casinha de cachorro com antena parabólica, uma calça dançando no varal, uma cobra desmaiada, uma casinha de saci - enfim, de tanto inventar coisas com as caixinhas, Chico teve que molhar as palavras, tomando um pouquinho de água.
Quem é esse Chico, que faz do nada, as coisas aparecerem bem na frente da gente? Ele disse que mora em São Paulo. Na semana passada, esteve em Londrina e, no final do mês, estará em São Félix do Araguaia (MT).
''Gosto de brincar desde menino. Depois comecei a trabalhar com bonecos, me formei em Letras, juntei essas coisas e comecei a dar formação aos professores. Uma das motivações que tenho em viajar o País, levando na mala um montão de brinquedos de materiais recicláveis é que, além de serem da época dos pais, estes brinquedos exigem que a confecção seja em conjunto com os filhos, o que aproxima as pessoas. Esse é o grande brinquedo que as crianças querem'', ensinou Chico.
Angelo, filho de Márcia, e a amiguinha Ana Clara, aprenderam a brincadeira direitinho e se encantaram também com o teatro de bonecos. ''Gostei de tudo, principalmente do jabolô. Já tinha visto um brinquedo desse na casa da minha amiga. É muito legal'', revelou Ana Clara.
Angelo disse que gostou quando Chico jogou o jabolô para cima. Mas o que será esse tal de jabolô? É um brinquedo milenar chinês feito de dois cones unidos pelas partes mais finas.
Com uma corda unindo duas varetas gira-se os cones. Porém, Chico é daqueles que guardam muitas coisas na cachola. Inclusive jabolô de chuveiro, garrafas pets, latas, enfim, até um esquisitolô, ele é capaz de inventar.
Ao contrário das outras histórias - para alegria dos que assistiram a apresentação - essa é uma história que não tem fim. É só o começo porque é a história do Chico, do jabolô, da casinha de saci, de uma calça dançando no varal e de todos os que têm cachola para guardar brinquedos invisíveis.

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