O doloroso espinho da paixão
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de junho de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Alguns pintam a paixão como um cupido de pele rosada, com asas fofas e um sorriso maroto. Outros desenham a paixão como a força mais subversiva do mundo, capaz de alterar a rota de qualquer pessoa, destruir diques e romper barragens. Em ambos os casos, ela sempre desempenha um duplo papel. Num primeiro momento, acaricia com êxtase os pés descalços dos amantes, depois, espalha espinhos e cacos de vidro pelo caminho.
Em seu novo romance, A Doença de Haggard, o escritor inglês Patrick McGrath focaliza o instante em que a paixão deixa de acariciar os pés dos amantes e começa a espalhar objetos cortantes pelo chão. Um momento difícil de ser localizado e isolado para uma observação mais apurada. O instante que a loucura semeia precipícios que crescem sob a escuridão da noite.
Lançado pela Companhia das Letras, A Doença de Haggard apresenta as dores do Dr. Haggard frente a uma paixão que consome sua existência como uma tempestade inesperada. Seu relato mostra o nascimento, ascensão e queda de seu objeto amoroso. Sua fidelidade obsessiva ao próprio sentimento o conduz por um caminho delirante. Onde apenas a morte, na melhor das hipóteses, pode libertá-lo.
Tudo começa quando Dr. Haggard se apaixona pela Senhora Vaughan, esposa do chefe plantonista do hospital onde reside e realiza sua especialização. O amor enlaça os dois e uma intensa relação extraconjugal tem início. A paixão assume proporções tão grandes que nenhum dos lados, nem o Dr. Haggard nem a Sra. Vaughan, consegue manter a reação em secreto sigilo. Quando o marido traído descobre, o desastre é inevitável.
Senhora Vaughan faz sua opção pelo marido e pelo filho, enquanto Dr. Haggard vagueia pelo desespero. Mas desse furacão nenhum dos dois sairá ileso. Ele sairá aleijado, ela morta. Patrick McGrath apresenta a paixão como uma doença que tanto pode provocar uma morte prematura do enfermo como prolongar sua vida através da esperança. Nesse labirinto, a narrativa de A Doença de Haggard é coberta por uma densa névoa onde a realidade não oferece ponto de apoio para o sofrimento.
O romance possui as mesmas características de outra obra de McGrath, Manicômio (Companhia das Letras, 1999). Nos dois romances, o escritor trabalha com a fúria da paixão e o adultério. Tudo ambientado dentro do universo médico, seja em hospitais ou manicômios. Tal ambientação é extremamente inteligente em colocar desordens do coração em lugares projetados para colocar ordem no corpo e na mente.
O narrador do romance é o próprio Dr. Haggard que conta ao filho da senhora Vaughan a versão da história. Nesse processo Haggard começa a deslocar, lentamente a atenção da falecida amada para o filho. Como se a imagem do jovem trouxesse a figura de sua progenitora. Um delírio que finca suas raízes num nebuloso território. Tudo acontecendo junto ao início do fantasma da Primeira Guerra Mundial.
O protagonista passa por todas as etapas do processo amoroso, até admitir ser um escravo do desejo: Em estado de amor romântico é a alma que se manifesta, num diálogo da alma para alma, e todo o resto não passa de comportamento, mesmo o sexo. Pois, afinal, o que é o sexo a não ser um partir-se e fundir-se? A transformação de dois em um, a recuperação da unidade perdida, e foi isso que vi naquela noite, que ela e eu éramos: parte de um único todo. Isso, claro, não chega a ser uma idéia nova, nem minha originalmente. Trata-se do ideal platônico, surgiu na própria alvorada da civilização: sou um fragmento, uma peça partida; sou incompleto e inacabado. Cegamente, tateei meu caminho pelo mundo, buscando, embora não soubesse, o que me completava. Ela me completava, mas a perdi. E, tendo conhecido a fusão e o todo, tornou-se impossível viver sem isso - seria melhor nunca ter sabido que tal condição era possível.
Para recuperar o comando de sua vida, empreende uma espécie de auto-exílio. O que seria uma solução acaba se tornando um novo problema, pois em relação à paixão o auto-exílio pode funcionar como uma faca de dois gumes: Sempre que meus olhos fechavam, sempre que eu vias doenças, ferimentos ou morte, também vislumbrava momentos e fragmentos de beleza, e a dificuldade estava em manter a atenção na morbidez, enquanto minha alma girava por amor.
Para aliviar suas dores físicas, Dr. Haggard começa a fazer uso regular de morfina. Sob o efeito da droga, suas dores emocionais também encontram algum abrigo. O fato é que, em seu relato, é difícil discernir até que ponto ele descreve os fatos e sentimentos em estado normal de consciência ou em estado alterado pela droga. Isso porque, em ambas as situações há consciência e lógica. Nesse contexto sugere que a razão não é a qualidade específica de uma única percepção, mas de várias e múltiplas.
Um dos méritos de Patrick McGrath em A Doença de Haggard está em apresentar, de maneira extremamente sutil e sensível, a paixão e os efeitos do amor como delírio iluminado. Capaz de alterar até mesmo o metabolismo do corpo, instaura novos sensações à mente. Altera as cores da vida deixando com um brilho particular e restrito no olhar do enamorado.
Claro que quanto mais estratosférica a viagem, maior a dor na queda. Nesse sentido a paixão poder ser encarada como uma espécie de droga sublime que, passado o barato, deixa efeitos colaterais. Uma droga que nenhum ser humano pode escolher simplesmente é escolhido por ela. Nessa falta de autonomia de escolha, na ausência de livre-arbítrio, reside o teor da tragédia. E a dependência assume a forma de uma necessidade de sobrevivência. Ou de um suicídio paliativo.
- De Patrick McGrath, Editora Companhia das Letras (telefone: (11)3846-0801 / internet: www.companhiadasletras.com.br), tradução de Celso Nogueira, 216 páginas, R$ 25,50.


