Documentário que exibe algumas cenas do movimento estudantil londrinense na década de 1970, “Democracia em Vertigem” é uma das grandes incógnitas do Oscar 2020. A produção dirigida pela mineira Petra Costa, filha de pais viveram em Londrina antes de seu nascimento, é apontado como o “azarão” do ano e, segundo alguns especialistas, tem poucas chances de ganhar a cobiçada estatueta.

“A categoria de documentário, assim como a de Filme Internacional, é sempre complicada de prever. Como são filmes de menor apelo comercial, nem todos os membros da Academia assistem e votam.”, afirma o crítico de cinema londrinense João Vitor Moreno. Segundo ele, a grande desvantagem do “Democracia em Vertigem” é não ter sido indicado ao prêmio do sindicato dos produtores, ao contrário dos outros quatro indicados à mesma categoria.

'Democracia em Vertigem': na disputa pelo Oscar, documentário também provoca disputas acirradas no Brasil por causa da polarização política
'Democracia em Vertigem': na disputa pelo Oscar, documentário também provoca disputas acirradas no Brasil por causa da polarização política | Foto: Netflix/ Divulgação

“Os prêmios de sindicato são sempre os melhores termômetros tanto por terem votantes em comum com o Oscar quanto para “guiar” o voto de indecisos”, ressalta ao enfatizar que apesar disso, o documentário pode dar sorte na disputa. "A partir do momento em que conseguiu a indicação ele passa a ter chances, já que é um filme que teve uma adesão espontânea de pessoas relevantes em Hollywood, como Tim Robbins, Wim Wenders e Spike Lee, que participaram de sessões comentadas, e também é um filme de relevância política, além de ser fácil identificar similaridades com o cenário político americano, o que pode conquistar votos. Seria uma surpresa, sem dúvidas, mas totalmente possível”, enfatiza.

Moreno salienta que a relevância política da produção brasileira conta como fator positivo na disputa. “A Academia tende a valorizar filmes considerados de alguma relevância política. Nesse sentido, a temática atual e pertinente, além de universal (crise política, luta de casses), de “Democracia em Vertigem” o colocam como candidato natural”.

Na avaliação dele, o maior trunfo da diretora Petra Costa é o fato de ter se colocado como personagem ao longo do filme, dividindo com o espectador suas impressões e sua trajetória pessoal. “Isso também impede que o filme pareça muito frio mesmo tratando de assuntos complexos de tramas políticas, e tenha um caráter mais universal mesmo fazendo um recorte bastante específico e único da História recente do Brasil”, conclui Moreno.

Críticas polarizadas agitam as redes

Pedro Bial criticou:"“É um filme de uma menina dizendo para a mamãe que fez tudo direitinho"
Pedro Bial criticou:"“É um filme de uma menina dizendo para a mamãe que fez tudo direitinho" | Foto: Jardiel Carvalho/ Folhapress

"Democracia em Vertigem', que está na briga pelo Oscar na categoria Melhor Documentário, foi objeto de discussões acirradas entre quem gosta e quem não gosta do filme. No centro da discussão está a polarização política que tem permeado tudo no Brasil ultimamente, inclusive a arte.

Há quem refute a indicação de "Democracia em Vertigem" e defenda seus argumentos, como o fez o jornalista e apresentador Pedro Bial. De seu ponto de vista, trata-se de uma ficção alucinante. “É um filme de uma menina dizendo para a mamãe dela que fez tudo direitinho, que ela está ali cumprindo as ordens e a inspiração de mamãe, somos da esquerda, somos bons, não fizemos nada, não temos que fazer autocrítica. Foram os maus do mercado, essa gente feia, homens brancos, que nos machucaram e nos tiraram do poder, porque o PT sempre foi maravilhoso e Lula é incrível”, afirmou. Apesar das críticas, Bial reconheceu os méritos técnicos e outros trabalhos de Petra, como o filme “Elena”, de 2012. Na lide Petra x Pedro, não raro, as redes sociais se agitaram.

Já a deputada Carla Zambelli (PSL), gravou um vídeo em inglês com legendas em português – certamente para ser visto na terra do Oscar - para reforçar o seu descontentamento pela indicação. Todo o conteúdo, claramente ideológico, é contrário à obra "made in Brazil" e essa é uma parte do que circula nas redes: "O que os jurados da Academia de Cinema em Los Angeles podem ainda não saber é que esse documentário que concorre agora ao Oscar criou uma história ficcional da crise política e econômica que levou ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016. Essa crise no Brasil tem sua origem durante os anos em que a esquerda estava no poder. Nessa época, o PT sempre flertou contra a liberdade, por exemplo, ao tentar estabelecer o 'controle social sobre a mídia'. Foi durante esse período que a democracia brasileira também perdeu parte de sua credibilidade devido ao maior escândalo de corrupção da história nacional, revelado e desmantelado pela Operação Lava Jato. Mas Petra Costa parece preferir a versão mais tendenciosa criada pelo PT. Brasileiros sonham, sim, um dia ver uma produção nacional ganhar o Oscar, mas não ao preço de falsificar a verdade."

Pelo sim, pelo não, o Brasil estará presente na noite de domingo à maior festa do cinema mundial pelas mãos de dois diretores brasileiros: Fernando Meirelles, com "Dois Papas", e Petra Costa, por "Democracia em Vertigem" e isso não é pouca coisa. (W.V.)

'Democracia em Vertigem' reúne torcedores

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. | Foto: N.Com/Divulgação

"Sabemos que é uma disputa muito difícil. Estar entre cinco indicados já é uma grande vitória e chegar ao primeiro lugar mais árduo ainda, pois os concorrentes são muito fortes. O mais importante de tudo é o feito da diretora Petra Costa, filha de amigos com os quais convivemos em Londrina no Movimento Poeira, na luta contra a Ditadura e pela Democracia - e isso marcou o período. É um documentário de peso e muito significativo para nós. Independentemente do resultado, eu o vejo como uma obra de arte, pois pegou um pedaço de um período do Brasil e não fez um relatório, mas traz um testemunho pessoal, colocou sentimento e esse é um sentimento de milhares de jovens como Petra. E aí está o valor artístico da obra. Sua diferença está também no sentimento que carrega, época em que vivemos hoje - de perplexidade e de grande aflição e Petra conseguiu transmitir isso. Mais do que pela leitura política, mas por seu valor humano. Aí está o seu valor: Chegou ao Oscar pelo valor artístico, cultural e a perplexidade em que está o Brasil." Tadeu Felismino, jornalista (Londrina)

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. | Foto: Norma Lessa/ Divulgação

"Estarei na frente da TV, na torcida pelo filme da Petra Costa. O grande mérito do filme, na minha opinião, é mostrar os políticos brasileiros sempre junto de quem está no poder. Magno Malta é campeão. Está com Dilma e Lula na rampa do Palácio. Quando Bolsonaro ganha, quem está do lado? Magno Malta, de novo. As imagens da sessão do impeachment da então presidente Dilma são impressionantes: desde políticos em transe nas orações e as falas de quem vota. Vergonhoso, quem presidiu tudo aquilo é um homem que hoje está preso. A cineasta soube trabalhar a história contemporânea do Brasil. Passou por Londrina, na década de 70, mostrou um grupo de resistência à ditadura, do qual eu fiz parte. Claro que vou torcer bravamente pelo documentário Democracia em Vertigem. Londrina no Oscar! Go Petra!"

Mara Sallai, jornalista brasileira (Radicada em Redwood City- California USA)

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. | Foto: Divulgação

"É um documentário contemporâneo, necessário, pertinente e que deve ser mostrado - não só para a Petra, mas para os brasileiros de um modo geral, é importante. O Brasil nunca figura naquela tapete vermelho e Petra merece. Vale muito a pena ver o documentário pela arte e pela qualidade, independentemente de ideologia. Torço por ele porque mostrou a realidade do Brasil. Existe uma expectativa muito grande e estamos otimistas. Como bom corintiano que sou não entro no jogo para perder, acredito no documentário e o sentimento atual é de uma expectativa boa. "

Nilson Monteiro, jornalista (Curitiba)

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"Existe total afeto pelo documentário, em especial pela amizade com Petra e seus pais, Marília Andrade e Manoel Costa. Londrina é mostrada durante a retomada do Movimento Estudantil e foi lá que começou nossa amizade. A força do movimento permitiu que mantivéssemos a relação de amizade mundo afora e acompanhamos todos os seus trabalhos da Petra, a sua trajetória. Assim foi com "Democracia em Vertigem", que é o registro de um momento de nossa história recente, mas que não nos permitiu respirar à época frente aos fatos. Esse documentário tem um papel muito importante sobretudo pela visão que decidiu adotar em relação a nossa história recente. Tenho uma grande expectativa em relação à premiação e já estou feliz porque Petra conseguiu finalizá-lo e ainda conquistou a indicação. O documentário traz situações tristes para quem a viveu a realidade política do País, mas eu espero que todos possam ver pois, nos dias de hoje, as pessoas estão mais dispostas a pensar.

Célia Regina de Souza, jornalista (São Paulo)

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