O documentário da discórdia
'Democracia em Vertigem', que concorre ao Oscar, divide opiniões no Brasil, mas recebeu a adesão de cineastas relevantes como Wim Wenders e Spike Lee
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de fevereiro de 2020
'Democracia em Vertigem', que concorre ao Oscar, divide opiniões no Brasil, mas recebeu a adesão de cineastas relevantes como Wim Wenders e Spike Lee
Marcos Roman e Walkiria Vieira/ Reportagem Local 
Documentário que exibe algumas cenas do movimento estudantil londrinense na década de 1970, “Democracia em Vertigem” é uma das grandes incógnitas do Oscar 2020. A produção dirigida pela mineira Petra Costa, filha de pais viveram em Londrina antes de seu nascimento, é apontado como o “azarão” do ano e, segundo alguns especialistas, tem poucas chances de ganhar a cobiçada estatueta.
“A categoria de documentário, assim como a de Filme Internacional, é sempre complicada de prever. Como são filmes de menor apelo comercial, nem todos os membros da Academia assistem e votam.”, afirma o crítico de cinema londrinense João Vitor Moreno. Segundo ele, a grande desvantagem do “Democracia em Vertigem” é não ter sido indicado ao prêmio do sindicato dos produtores, ao contrário dos outros quatro indicados à mesma categoria.

“Os prêmios de sindicato são sempre os melhores termômetros tanto por terem votantes em comum com o Oscar quanto para “guiar” o voto de indecisos”, ressalta ao enfatizar que apesar disso, o documentário pode dar sorte na disputa. "A partir do momento em que conseguiu a indicação ele passa a ter chances, já que é um filme que teve uma adesão espontânea de pessoas relevantes em Hollywood, como Tim Robbins, Wim Wenders e Spike Lee, que participaram de sessões comentadas, e também é um filme de relevância política, além de ser fácil identificar similaridades com o cenário político americano, o que pode conquistar votos. Seria uma surpresa, sem dúvidas, mas totalmente possível”, enfatiza.
Moreno salienta que a relevância política da produção brasileira conta como fator positivo na disputa. “A Academia tende a valorizar filmes considerados de alguma relevância política. Nesse sentido, a temática atual e pertinente, além de universal (crise política, luta de casses), de “Democracia em Vertigem” o colocam como candidato natural”.
Na avaliação dele, o maior trunfo da diretora Petra Costa é o fato de ter se colocado como personagem ao longo do filme, dividindo com o espectador suas impressões e sua trajetória pessoal. “Isso também impede que o filme pareça muito frio mesmo tratando de assuntos complexos de tramas políticas, e tenha um caráter mais universal mesmo fazendo um recorte bastante específico e único da História recente do Brasil”, conclui Moreno.
Críticas polarizadas agitam as redes

"Democracia em Vertigem', que está na briga pelo Oscar na categoria Melhor Documentário, foi objeto de discussões acirradas entre quem gosta e quem não gosta do filme. No centro da discussão está a polarização política que tem permeado tudo no Brasil ultimamente, inclusive a arte.
Há quem refute a indicação de "Democracia em Vertigem" e defenda seus argumentos, como o fez o jornalista e apresentador Pedro Bial. De seu ponto de vista, trata-se de uma ficção alucinante. “É um filme de uma menina dizendo para a mamãe dela que fez tudo direitinho, que ela está ali cumprindo as ordens e a inspiração de mamãe, somos da esquerda, somos bons, não fizemos nada, não temos que fazer autocrítica. Foram os maus do mercado, essa gente feia, homens brancos, que nos machucaram e nos tiraram do poder, porque o PT sempre foi maravilhoso e Lula é incrível”, afirmou. Apesar das críticas, Bial reconheceu os méritos técnicos e outros trabalhos de Petra, como o filme “Elena”, de 2012. Na lide Petra x Pedro, não raro, as redes sociais se agitaram.
Já a deputada Carla Zambelli (PSL), gravou um vídeo em inglês com legendas em português – certamente para ser visto na terra do Oscar - para reforçar o seu descontentamento pela indicação. Todo o conteúdo, claramente ideológico, é contrário à obra "made in Brazil" e essa é uma parte do que circula nas redes: "O que os jurados da Academia de Cinema em Los Angeles podem ainda não saber é que esse documentário que concorre agora ao Oscar criou uma história ficcional da crise política e econômica que levou ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016. Essa crise no Brasil tem sua origem durante os anos em que a esquerda estava no poder. Nessa época, o PT sempre flertou contra a liberdade, por exemplo, ao tentar estabelecer o 'controle social sobre a mídia'. Foi durante esse período que a democracia brasileira também perdeu parte de sua credibilidade devido ao maior escândalo de corrupção da história nacional, revelado e desmantelado pela Operação Lava Jato. Mas Petra Costa parece preferir a versão mais tendenciosa criada pelo PT. Brasileiros sonham, sim, um dia ver uma produção nacional ganhar o Oscar, mas não ao preço de falsificar a verdade."
Pelo sim, pelo não, o Brasil estará presente na noite de domingo à maior festa do cinema mundial pelas mãos de dois diretores brasileiros: Fernando Meirelles, com "Dois Papas", e Petra Costa, por "Democracia em Vertigem" e isso não é pouca coisa. (W.V.)
'Democracia em Vertigem' reúne torcedores

"Sabemos que é uma disputa muito difícil. Estar entre cinco indicados já é uma grande vitória e chegar ao primeiro lugar mais árduo ainda, pois os concorrentes são muito fortes. O mais importante de tudo é o feito da diretora Petra Costa, filha de amigos com os quais convivemos em Londrina no Movimento Poeira, na luta contra a Ditadura e pela Democracia - e isso marcou o período. É um documentário de peso e muito significativo para nós. Independentemente do resultado, eu o vejo como uma obra de arte, pois pegou um pedaço de um período do Brasil e não fez um relatório, mas traz um testemunho pessoal, colocou sentimento e esse é um sentimento de milhares de jovens como Petra. E aí está o valor artístico da obra. Sua diferença está também no sentimento que carrega, época em que vivemos hoje - de perplexidade e de grande aflição e Petra conseguiu transmitir isso. Mais do que pela leitura política, mas por seu valor humano. Aí está o seu valor: Chegou ao Oscar pelo valor artístico, cultural e a perplexidade em que está o Brasil." Tadeu Felismino, jornalista (Londrina)

"Estarei na frente da TV, na torcida pelo filme da Petra Costa. O grande mérito do filme, na minha opinião, é mostrar os políticos brasileiros sempre junto de quem está no poder. Magno Malta é campeão. Está com Dilma e Lula na rampa do Palácio. Quando Bolsonaro ganha, quem está do lado? Magno Malta, de novo. As imagens da sessão do impeachment da então presidente Dilma são impressionantes: desde políticos em transe nas orações e as falas de quem vota. Vergonhoso, quem presidiu tudo aquilo é um homem que hoje está preso. A cineasta soube trabalhar a história contemporânea do Brasil. Passou por Londrina, na década de 70, mostrou um grupo de resistência à ditadura, do qual eu fiz parte. Claro que vou torcer bravamente pelo documentário Democracia em Vertigem. Londrina no Oscar! Go Petra!"
Mara Sallai, jornalista brasileira (Radicada em Redwood City- California USA)

"É um documentário contemporâneo, necessário, pertinente e que deve ser mostrado - não só para a Petra, mas para os brasileiros de um modo geral, é importante. O Brasil nunca figura naquela tapete vermelho e Petra merece. Vale muito a pena ver o documentário pela arte e pela qualidade, independentemente de ideologia. Torço por ele porque mostrou a realidade do Brasil. Existe uma expectativa muito grande e estamos otimistas. Como bom corintiano que sou não entro no jogo para perder, acredito no documentário e o sentimento atual é de uma expectativa boa. "
Nilson Monteiro, jornalista (Curitiba)

"Existe total afeto pelo documentário, em especial pela amizade com Petra e seus pais, Marília Andrade e Manoel Costa. Londrina é mostrada durante a retomada do Movimento Estudantil e foi lá que começou nossa amizade. A força do movimento permitiu que mantivéssemos a relação de amizade mundo afora e acompanhamos todos os seus trabalhos da Petra, a sua trajetória. Assim foi com "Democracia em Vertigem", que é o registro de um momento de nossa história recente, mas que não nos permitiu respirar à época frente aos fatos. Esse documentário tem um papel muito importante sobretudo pela visão que decidiu adotar em relação a nossa história recente. Tenho uma grande expectativa em relação à premiação e já estou feliz porque Petra conseguiu finalizá-lo e ainda conquistou a indicação. O documentário traz situações tristes para quem a viveu a realidade política do País, mas eu espero que todos possam ver pois, nos dias de hoje, as pessoas estão mais dispostas a pensar.
Célia Regina de Souza, jornalista (São Paulo)


