O doce cinema que vem do Líbano
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Em lançamento hoje na cidade, ''Caramelo'' é um desses bons momentos que permitem acreditar que o cinema pode e deve ser entretenimento (a diversão) aliado à circulação de ideias (a reflexão) (confira programação de cinema na página 2). Isto é, um agente capaz de oxigenar as salas escuras já há um bom tempo tão carregadas de agentes poluidores, visuais e sonoros.
Nadine Labaki, jovem, esperta e bela intérprete-roteirista-diretora de ''Sukkar Bannat'' (o título original), escolheu o espaço de um salão de beleza em Beirute para que cinco mulheres de idades, religiões e estratos sociais diversos exponham e discutam seus problemas, tensões, alegrias e sonhos. A interação deste conjunto heterogêneo de pessoas e costumes é permeável não apenas a uma análise psicológica, mas também ao olhar lúcido e simples de uma artista capaz de transformar esta realidade complexa em algo mais ameno e sutil, sem que ela perca em fidelidade e densidade.
Mais interessada em delinear matizes do que em teorizar sobre antinomias, com inteligência Labaki introduz o espectador neste universo habitado pelas cinco mulheres. Layal (a própria Labaki) é a dona do salão, trinta e poucos, ainda morando com os pais mas mantendo uma relação com um homem casado. Nisrim é a jovem muçulmana às vésperas do casamento, mas sem coragem para confessar ao noivo que não é mais virgem. Yamal, divorciada, é mãe de dois filhos, e já deu a largada em sua corrida contra o tempo. Ao contrário de Rose, que parece já ter desistido de apostar nesta disputa. E afinal a discreta e tímida Rima, mulher que vem se armar de coragem para enfrentar sua ambivalência sexual.
Todas elas, além de refletir certos problemas universais ligados às suas relações com os homens, os filhos, o corpo, o sexo, o casamento, o trabalho, a religião, espelham ainda o conflito de mulheres do Oriente Médio influenciadas pela cultura e bens de consumo ocidentais. Nesta busca de uma identidade, as imagens das atividades do salão são eloquentes - depilação, escova, manicure, etc. Assume aqui vital importância a possibilidade de transformar fisionomias.
Labaki se utiliza dos elementos cinematográficos mais exteriores e atraentes para criar um clima de sensualidade. A iluminação bem cuidada colore as cenas com um suave tom de mel, enquanto a música exuberante mas jamais enjoativa funde a sonoridade de ocidente e oriente.
Mesmo que ''Caramelo'' centre sua atenção sobre personagens femininos, isto não faz dele um ''filme para mulheres'', como alguns críticos o classificaram. Esta é uma visão míope, é desconhecer completamente que homens e mulheres estão socialmente imbricados. Layal, Rima, Nisrim e outras tantas mulheres libanesas ou argentinas, brasileiras, russas, muçulmanas, brancas e negras são a contracapa de seus maridos, pais, filhos, noivos, irmãos ou parceiros, e vice-versa.


