Apresentar a obra de arte contemporânea não é tarefa simples. Ainda mais se esta obra propõe o choque e/ou a fusão de questões filosóficas com artísticas, em uma estética longe do padrão convencional.
No caso de Waltércio Caldas (Rio de Janeiro, 1946), a essa dificuldade, adiciona-se o fato de que o artista sempre coloca em circulação um discurso plástico questionando o próprio sistema da arte.
Sua preocupação não é com a presença de uma emoção, de uma sensibilidade ou demonstração de habilidade manual, mas de um reflexão conceitual sobre o objeto artístico.
O problema, no caso, é saber que qualquer definição de seu trabalho nunca dará conta da real dimensão que sua obra aponta porque é escorregadia em relação às categorizações.
Poderíamos pensar sua trajetória pelos desdobramentos e evoluções formais ao longo da carreira, mas não há qualquer aparência entre as formas de uma fase e outra, que se diferem e até se divergem, como se fossem criados por pessoas diferentes. Enquanto em 1982, no catálogo ‘‘Manual da ciência popular’’, realizado pela Funarte, os objetos eram arrancados de sua condição utilitária, em 1997, na Bienal de Veneza, as obras impunham uma exigência técnica como a fundição de vidros e metais até chegar à sua condição final.
Mas se não há como pensar sua obra pelo aspecto formal simplesmente, pode-se verificar sua coerência interna e entender sua dimensão como uma das mais intrigantes dentro da história da arte contemporânea.
Nonsense, paradoxo zen, seu trabalho ao romper a linearidade formal, produz a vertigem de ‘‘um lance de dados’’ jogados ao ar, em uma nova síntese de interpretações para todos os trabalhos anteriores, recodificando-os. Como se pudessem se transformar, como se pedissem alterações em sua semântica, mesmo depois de terminada a exposição e estando distante uns dos outros.
Suas obras de ‘‘desorientação didática’’ falam de um mundo onde a cultura já não suporta mais a cultura – é preciso desaprender com ela. É o caso da obra ‘‘Matisse (o talco)’’, de 82, onde a única operação realizada é a de pulverizar sobre um livro ilustrado do pintor H. Matisse um punhado de talco. Ou do livro ‘‘Velásquez’’, de 96, em que o artista interfere na imagem usando recursos de computação gráfica, retirando elementos e tornando as imagens imprecisas.
Assim é o trabalho de W. Caldas, passando da escala fotográfica para a escala pública, monumental, de maneira que parece tão simples, que sua realização poderia passar por inútil, mas sem ela quem poderia pensar nisso?
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