A princípio, ''Pecado Original'' (veja a programação de cinema na página 5) é a exaltação dos lábios mais polpudos e provocantes acima do Equador, os de Angelina Jolie, capazes de se transformar a qualquer momento em ladrões de cena. Excluída esta particularidade anatômica quase sem competidores, vejamos o que sobra desse filme que faz da indecisão o seu maior pecado.
Difícil crer que a trama em que se baseia o argumento de ''Original Sin'' veio da novela ''Waltz Into Darkness'', de Cornell Woolrich, que já forneceu sua prosa requintada para thrillers clássicos assinados por Hitchcock (''Janela Indiscreta'') e François Truffaut (''A Noiva Estava de Preto''). Em sua adaptação equivocada, o diretor-roteirista Micahel Cristofer, com formação teatral e literária, jamais se decide entre o romance gótico ou um ''film noir'' ou ainda uma quase-melo-love-story, e acaba celebrando uma híbrida aliança entre as várias vertentes.
Rico e pragmático, o cafeicultor Luis Vargas (Antonio Banderas, vivendo um personagem sem matizes) vive só em sua plantação de café em Cuba, 1900. Tem quase tudo o que quer, mas precisa de uma esposa, americana e fértil de preferência, para garantir status e descendência. Sem entusiasmo, troca correspondência com algumas aspirantes. Afinal chega à ilha a enigmática e irresistível Julia Russell (Angelina Jolie, decorativa e com rala consistência dramática), que envolve Luis afetiva e libidinosamente. O problema é que a mulher não se parece muito com a fotografia enviada. Suas histórias também são esquisitas, e trouxe até um misterioso baú que se recusa a abrir. Daí em diante a trama é um desconcerto de complicações: Julia não só tem um nebuloso passado como logo desaparece levando um bom dinheiro de Luis. Em cena um providencial (até demais) investigador privado, e mais novidades que aos poucos carregam ''Pecado Original'' para os domínios da monotonia. Banderas e Jolie, sobrecarregados neste arrastado jogo de gato e rato, sem perfis psicológicos consistentes, terminam sucumbindo aos trancos e barrancos, desembocando num epílogo tão artificial quando previsível.
Para complicar, ''Pecado Original'' opta por um estilo visual que compromete ainda mais o todo - literalmente, metade do que se vê é em câmera lenta ou utiliza outros efeitos para ralentar a imagem. Nada estimulante e sempre muito próximo do tédio total, resta ao filme o ''sex appeal'' da dupla Banderas-Jolie. Mas até o ''gossip'' sobre camas ardentes entre os dois durante as filmagens não deu certo, e o filme naufragou também nas bilheterias.
(C.E.L.J.)

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