Ilustração: Arionauro/Carta Z NotíciasO caminho do humor na tevê não tem nada de engraçado. Principalmente para quem almeja uma vaga no métier. Ao contrário da época do rádio, que servia de escola para muita gente boa, hoje em dia só se consegue uma chance através de três meios: por sorte, amizade ou, em casos raros, através das oficinas de atores e roteiristas da Globo, que, diga-se de passagem, não tem aulas específicas de comédia.
Bruno Mazzeo, redator-final do ‘‘Chico Total’’ - fora do ar devido a um problema de saúde de Chico Anysio - aproveita para colocar lenha na fogueira. Segundo ele, há preconceito com o humor até dentro da própria Globo. Bruno conta que na oficina de roteiristas, quando alguém apresenta um texto de humor, não é visto com bons olhos. ‘‘No Brasil existe uma inteligência que é uma merda. Acha o humor uma coisa menor’’, dispara.
Na verdade, Bruno é um dos poucos privilegiados que tem vaga garantida na área humorística na tevê. Filho de Chico Anysio, ele sabe que ganhou o emprego graças ao pai. Mas garante que já aprendeu a lidar com isso. Segundo Bruno, aos poucos, ele terá a chance de mostrar sua capacidade.
Parentesco também foi a porta de entrada do redator Márcio Wilson na tevê. Irmão do veterano redator Mauro Wilson, Márcio começou como free-lancer vendendo piadas para o jurássico ‘‘A Praça é Nossa’’, do SBT. Aguentou por um tempo, mas depois desistiu. ‘‘O SBT é muito conservador. Tem um modelo antigo e não gosta de inovação’’, afirma, acrescentando que toda a redação do programa é feita por veteranos.
Depois da frustração com a tentativa-relâmpago do ‘‘Casa do Terror’’ na Globo, que não passou do segundo episódio, hoje Márcio faz parte da equipe de Caça-Talentos, a novelinha matinal da Angélica.
Péricles de Barros é um dos poucos exemplos de redatores escolhidos através da oficina de roteiristas da Globo, coordenada por Flávio de Campos. ‘‘Foi muito difícil chegar até aqui’’, testemunha Péricles que, entre outros empregos anteriores, foi editor de imagens da TV Búzios.
Depois de concorrer com 600 candidatos e conquistar uma das duas únicas vagas da oficina da Globo, Péricles chegou a ser sondado para o projeto do ‘‘Sai de Baixo’’. Mas, por insegurança, acabou dizendo que não sabia escrever humor. ‘‘Depois me arrependi. Percebi que escrever é um processo de aprendizado’’, pondera.
A qualidade cada vez mais duvidosa do humor encontra críticos ferrenhos entre os veteranos. E, como alvo da fúria, a turma do ‘‘Casseta & Planeta, Urgente!’’ é a preferida. ‘‘Enquanto o humor crítico, que faziam Jararaca e Ratinho, na Rádio PRK 30, encontra cada vez menos espaço na tevê, o besteirol e o deboche têm respaldo’’, alfineta um veterano humorista, que prefere não se identificar.

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