Talvez devêssemos, pelo menos uma vez por semana, acordar pela manhã e perguntar a nós mesmos: do que é constituído o amor? Matéria ou energia? Acaso ou destino? Realidade ou ilusão? Talvez uma conclusão consistente só aparecesse após alguns anos, ou talvez seria necessário toda uma vida para elucidar tal enigma.
O amor cresce dentro de cada um com o tempo e acontecimentos, assim como um planta, uma árvore, ou já nascemos com o amor completo dentro de nós e apenas o tempo e acontecimentos vão iluminando, tornando visível, parte por parte até oferecer a sensação do todo?
ReproduçãoPode-se dizer que o amor nasce de um encontro e todo encontro traz em si a possibilidade de um desencontro. Parece que, no amor, essa é uma lei clássica, irrevogável. Encontros e desencontros.
Pode-se dizer que os encontros e desencontros são compostos por dois elementos que se confundem: realidade e fantasia. No labirinto do amor, talvez seja praticamente impossível separar, discernir, fantasia e realidade.
Essa impossibilidade de estabelecer limites entre fantasia e realidade não compromete o sentimento em si, mas pode determinar seus futuros caminhos.
Em ‘‘Noturnos’’, novo livro da escritora Ana Miranda, as personagens mergulham fundo nessa ausência de limites, pisam no acelerador da fantasia a ponto de erguerem um mundo superior ao real. Um mundo onde o amor é alimentado pelas fantasias, que tanto podem converter encontros em desencontros ou vice-versa. Os desencontros levam ao encontro de si mesmo no parque de diversão do caos.
‘‘Noturnos’’ é composto de 65 pequenos contos (não passam duas páginas) narrados sempre por uma voz feminina. Em alguns momentos leva a crer que trata-se de uma única narradora. Com textos constituídos de único parágrafo a autora delineia vozes, diálogos, pensamentos, fatos e sensações utilizando apenas vírgulas.
Um dos elementos presentes em quase todos os contos é a propensão das personagens em misturarem realidade e fantasia numa massa homogênea. Criam um novo presente e precisam salvar-se desse presente transformando-o, o mais rápido possível, em passado. Considerando que o amor só existe no presente (pode-se dizer que no passado ele ‘‘existiu’’ e no futuro ele ‘‘existirᒒ), desejam superá-lo. A impossibilidade de final feliz é concreta, sólida e sombria.
Em ‘‘Noturnos’’ Ana Miranda segue o mesmo caminho de seus dois romances anteriores, ‘‘Desmundo’’ (Companhia das Letras, 1996) e ‘‘Amrik’’ (Companhia das Letras, 1997). Realiza uma literatura com elegantes doses de feminilidade, narrativas a partir do ponto de vista feminino sem jogar colheres de açúcar num como d’água. Trabalha a linguagem como elemento da própria narrativa, exercita a forma como elemento do conteúdo.
O conto que encerra o livro, ‘‘A Invenção do Amor’’ oferece um enfoque mais sentimental à essa feminilidade que não segue os preceitos da razão. Ocupa outras esferas inacessíveis à masculinidade:
‘‘ ...embora tenha lido sobre ele e pensado a maior parte de meus pensamentos sobre ele e sonhado quase todos os meus sonhos com ele e sentido sua plenitude em meus ouvidos e tendo ele segurado outros seios e tendo eu visto seus lábios tremerem de paixão por outras, poderei viver sem ele? pouco importa, decido, abro o meu armário, tiro de dentro o vestido vermelho, o vestido branco de gaze, o preto, o estampado decotado nas costas, os florido de golas de rendas, tiro os sapatos de salto fino, as camisolas de seda, no porta-jóias do banheiro tiro os enfeites e os batons, experimento tudo, me pinto, me lavo, visto e desvisto, me desnudo, será hoje mesmo, tomaremos vinho, não é como marcar um encontro para dizer adeus a quem nunca tive...’’

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