Marcos Losnak
Especial para a Folha2
A moda não é arte. Os teórico são categóricos nesta afirmação. Arte é arte e moda é moda. Mas em várias situações tanto a moda pode utilizar instrumentos estéticos da arte como a arte pode utilizar elementos da linguagem da moda.
Nos últimos anos um artista brasileiro vem se destacando no diálogo entre moda e artes plásticas, o estilista paulista Carlos Miele. Criador da marca M. Officer em 1986, Carlos Miele numa etapa inicial levou o mundo das passarelas para o Museu de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro. Percebendo que esses espaços oficiais desfiguravam sua proposta de ruptura estética, optou por levar a estética da arte contemporânea para as passarelas. Assim nasceram os chamados ‘‘desfile/performance’’ e ‘‘desfile/instalação’’.
Um registro desse trabalho, considerado contaminação estética, está presente no livro ‘‘Carlos Miele – M. Officer’’, que a Editora Cosac & Naify acaba de lançar dentro da recém-inaugurada coleção ‘‘Contemporânea Moda’’. A obra traz registros fotográficos da atuação de Miele como estilista, com pesquisas de novos materiais têxteis e suas criações desenvolvidas em parcerias com artistas como Tunga e Arthur Omar.
Segundo sua proposta de ruptura, a partir de 1997 Carlos Miele passou incorporar a música como elemento participativo de suas obras. O primeiro trabalho, o desfile/performance ‘‘Sempre Gostei de Bagunça’’, em parceria com o artista plástico Tunga, teve a trilha sonora executada ao vivo com improvisos de Ulysses Rocha e Teco Cardoso. Em ‘‘Corpo Público’’, em parceria com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, a música foi executada por Naná Vasconcelos e Zeca Baleiro. Com uma passarela circular, os músicos estavam inseridos no interior do desfile.
Um exemplo da ousadia que caracteriza suas criações foi o desfile de lançamento da coleção primavera-verão 2000 da M. Officer. Realizado em parceria com o artista plástico Nelson Leirner, o desfile/performance aconteceu sem palco e sem passarela. As paredes dos camarins foram todas retiradas trazendo os bastidores para os olhos do público. Os preparativos das modelos, as trocas de roupa, passaram a fazer parte do desfile. A trilha sonora era composta pelas conversas proveniente de dezenas de microfones instalados nos camarins.
Eventos como esse deixam claro que Miele não está preso em sua prática de estilista, no desenho da roupa propriamente dito, mas numa visão mais ampla onde variadas linguagens artísticas dialogam entre si. Incorpora as vertentes da arte contemporânea, como a arte conceitual, e a tecnologia para compor show-business da moda.
Embora esteja atrelado ao universo da moda, o estilista realiza trabalhos distantes das passarelas. Em 1998 realizou a performance intitulada ‘‘Que o Homem Saia’’, baseada na criação do arquiteto Flavio de Carvalho (1899-1973). Cansado dos trajes masculinos europeus, como terno e gravata, para os habitantes dos trópicos, Flavio de Carvalho criou uma saia masculina e desfilou com a peça pelas ruas do centro da cidade de São Paulo em 1956. Carlos Miele desenhou um nova saia para o homem brasileiro e desfilou pela Avenida Paulista. A performance teve um desdobramento mais interessante, o vídeo-arte intitulado ‘‘Futebol Noturno’’. Nada mais do que um jogo de futebol no escuro em que o uniforme dos jogadores era composto de camiseta e saia.
Carlos Miele também foi um dos pioneiro na utilização de deficiente físicos (ou portadores de necessidades especiais) nos shows da moda. Em seu trabalho ‘‘Luciferos Vestíveis’’ resgatou o modelo Ranimiro Lotufo, que havia abandonado as passarelas devido a um acidente em que perdeu uma das pernas. Utilizando uma perna mecânica, Lotufo protagonizou um vídeo em que o estilista realiza uma releitura dos ‘‘Parangolés’’ do artista plástico Hélio Oiticica.
Carlos Miele – M. Officer – Cosac & Naify Edições, apresentação de Angélica de Moraes, 65 fotos (cor e PB), 92 páginas, capa dura, R$ 21,00.Carlos Miele, da M-Officer, lança livro fotográfico em que retrata a aproximação entre o estilista e o artista plástico
Reprodução/Wilton MontenegroDesfile/performance de Carlos Miele e Tunga em 1997Reprodução/Thomas SussemihlCarlos Miele prepara uma de suas instalaçõesReprodução/Jaques FaingNaná Vasconcelos no video ‘Respiração’, de Miele e Arthur OmarReprodução/André Schiliró‘Casulo’, performance apresentada no Museu da Imagem e do Som de São Paulo em 1999Reprodução/André SchiliróVestido apresentado no desfile/performance ‘Sempre Gostei de Bagunça’Reprodução/André SchiliróGisele Bundschen com vestido de ‘tecido-com-memória’Reprodução/André Schiliró‘Rainha da Rua’, vestido coberto com folhas de ouro