O diálogo divino de Adélia Prado
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Ubiratan Brasil<BR> Agência Estado 
Desde 1999, quando publicou ''Oráculos de Maio'', a poeta Adélia Prado não lançava um livro de poesias. O jejum terminou este mês com ''A Duração do Dia'', no qual ela novamente escreve para manter um diálogo com Deus - em seus versos, estabelece-se uma ponte com a transcendência e uma crença na perenidade da carne e na eternidade da alma. Maior poeta brasileira viva, ao lado de Ferreira Gullar e Manoel de Barros, Adélia tanto flerta com a metafísica como se atém aos detalhes do cotidiano mas, acima de tudo, aposta na grandeza das pequenas coisas.
No período em que não criou versos, Adélia exercitou-se na prosa, que também se revelou apurada, como comprova na seguinte entrevista, com respostas elaboradas em meio à tranquilidade de sua Divinópolis, onde cuida de sua delicada saúde.
Você continua consciente do papel oracular da poesia e do caráter epifânico da arte. Como isso funciona?
Acredito, do mesmo modo que funciona para todo poeta. A poesia, ''a beleza'', é epifânica sempre. É uma aparição oracular pedindo corpo por via da palavra. Não a invento, eu a recolho. Como? Ainda não se descobriu o misterioso caminho da criação de um poema, estranho ao próprio autor. Ao fim, a arte é maior que o artista. Sem esta convicção (e se equivoca bastante) não deve vir a público. A beleza exige obediência estrita.
Apesar de sua autonomia, os poemas guardam uma surpreende unidade. Como isso funciona?
É uma pergunta que não sei responder. Há um pequeno sinal de que preservar a unidade de uma obra é obedecer-lhe e vigiar para não nos rendermos a enfeites, truques, novidades. Às vezes a beleza é uma litania sobre a feiura e a dor.
Como chegou ao título?
Cheguei ao título desta vez com um pouco de sofrimento. Passeei bastante por Van Gogh e Chagall, querendo campos, messes, muito sol, fainas, trabalho no campo, mas no fundo a imagem não se acoplava perfeitamente ao livro, até que em Magritte, aqueles ovos e aquela vela acesa resolveram o problema. Não dá para dizer aqui tudo que o quadro me provocou em relação ao conjunto dos poemas, a unidade do livro, mas acredito ter acertado.
Como vê a poesia num mundo perturbado pelo terrorismo e pela guerra?
Da horrível morte de Saddam Hussein nasceu o poema ''O Ditador na Prisão''. A poesia não é nem nasce necessariamente do bem-estar. Ela vem apesar e por causa de tudo. Por isso nos consola tanto. A tristeza num poema é alegria, ainda que lacrimosa.
E o que diz sobre o dualismo que mostra tanto a fragilidade do corpo como sua perenidade?
Perfeitamente. Porque experimento um corpo sujeito à doença, à velhice, à morte, mas creio na ressurreição da carne, na promessa de Jesus: ''Aquele que crer em mim viverá para sempre.''
Você não publicava um livro de poesia desde 1999. ''A Duração do Dia'' traz, portanto, poemas escritos ao longo destes dez anos ou há material mais antigo?
Tem poemas muito novos e outros que foram extraídos de material antigo, que em seu tempo não estavam resolvidos como poema, mas agora encontraram a sua forma.
Você também acredita que a forma de criar um poema muda de um para outro, como rezam diversos poetas?
Penso que um autor se escreve. Seu texto é ele mesmo, nem ficção científica escapa. Portanto, se faz uma coisa só, vista a luzes e profundidades diferentes. Do meu limite não há como sair.
Uma curiosidade de leitor: o que influi para um poema ocupar apenas uma página enquanto outro necessita de várias delas?
A dimensão do poema é do mesmo tamanho do que deve ser dito. Uma cachoeira ou um pingo d'água.
A religião sempre lhe foi inspiradora?
A fé, o contexto de minha religião, doutrina, liturgias, devoções, foram e são experiências vitais para mim, e não há experiência verdadeira que não inspire. A religião, em que pesem excessos ou erros doutrinários, equívocos de catequese, se ela oferece o sentimento de estar ligado a uma fonte de transcendência e sentido, de perenidade, melhor que eu, mais poderosa que eu, onde possa prostrar-me como criatura diante de um Criador, que me castiga, protege e consola, qualquer um de nós tem a terra e o céu para lhe inspirar.
SERVIÇO
- A Duração do Dia
Autora - Adélia Prado
Editora - Record
Quanto - R$ 27,90 ( 112 págs.)


