Cannes, ponto de encontro cinematográfico (e não somente) de todos os continentes, todas as nacionalidades, todos os imaginários, é o lugar que simboliza aquilo que a globalização tem de mais belo a oferecer: uma abertura em busca daquele utópico concerto das nações capaz de partilhar, simultaneamente, a curiosidade, a poética, a transformação, o diálogo entre povos e culturas. Aqui, o mundo se comunica com o mundo com rara intensidade, refletindo caminhos e descaminhos, dignidades e misérias. Essas afirmações, aparentemente aleatórias, surgem já nesse primeiro momento, nessas passadas primeiras 48 horas em que quatro filmes diferentes, mas iguais (e desiguais, aqui e ali) bateram nas telas do Palais des Festivals, provocando ressonâncias e reflexões, aplausos e rejeição.

Diferentes porque procedem de países distintos. Iguais porque falam de gente. Não de representações digitais mirabolantes, mas de gente de carne e osso e alma e perdas e danos. Quatro filmes de peso na primeira página desta competição que, a julgar por esta abertura, pode ser uma das mais instigantes dos últimos anos. Quatro filmes de digestão lenta, difícil, mas provocantes, desafiadores. O arranque ficou por conta do romeno "Sieranevada", enigmático título do terceiro trabalho do romeno Cristi Puiu, autor de duas obras devastadoras, "A Morte do Sr. Lazarescu" e "Aurora", também vistos em Cannes.

Ambiciosa e sem limites, a narrativa explora a ação praticamente transcorrida em tempo real, 173 minutos. Há uma boa pista: certo personagem, vendo na tevê um documentário, define o filme como "etnografia e folclore". Isto soa como um comentário do próprio diretor a respeito do filme que estamos vendo. A proposta é claramente etnográfica, e o folclore é o retrato sociocultural da Romênia contemporânea. Como? Por meio da observação detalhada de uma família de uma dúzia de membros reunida num apartamento para homenagear o patriarca falecido há 40 dias. Puiu planta sua câmera em pontos estratégicos desse microcosmo e vai dissecando dramas e segredos (com variantes de humor e duas escapadas para as ruas, como respiro) surgidos durante as conversas. Rico em detalhes, "Sieranevada" expõe amplo painel temático sobre instituições diversas, de política a casamento e sexo, passando por religião, teorias conspiratórias e imbróglios familiares, tudo tirado a limpo por um estupendo trabalho coral dos atores.

Outra pegada forte: o francês "Rester Vertical", drama psicológico rural de Alain Guiraudie. Filme de incômoda visceralidade, naturalista em sua proposta centrada em Leo, homem em busca de inspiração para um roteiro. Ele termina vivendo uma série de experiências reais, às vezes entre o fantástico e o místico, que colocam em discussão temas como paternidade, solidão, depressão pós-parto e outros que flertam com a polêmica, como suicídio assistido e homossexualidade ruralista, numa sucessão de fatos que às vezes podem desorientar o espectador. Mas a novidade e o impacto estão sempre presentes.

Uma das marcas mais reconhecíveis outra vez em Cannes – são 14 na competição, um recorde – é a do inglês Ken Loach. Uma palavra define este cineasta octogenário, congenitamente fiel à sua formação social e política: engajamento. "I, Daniel Blake" é outra manifestação da coerência ideológica de Loach. O personagem do título pertence à galeria de operários de raiz proletária, honestos, obstinados, em perpétua luta contra o sistema que esmaga a dignidade humana. Há outro filme dele, "My Name is Joe", realizado há quase 20 anos, muito parecido. Agora, o marceneiro Daniel Blake, 59, é o retrato de uma integridade humanista que às vezes confunde bons sentimentos com práticas ideológicas. Recuperando-se lentamente de um infarto, Blake inutilmente se enreda na burocracia das repartições públicas em busca de trabalho. E ainda tenta ajudar uma mãe solteira (desempregada e logo prostituta) a sustentar dois filhos menores. Apesar da melodramatização manipulativa de certos lugares comuns em alguns momentos, a paixão pela causa e o idealismo de Loach deixam o filme em patamar acima da mera correção.

Bizarra e barroca, a comédia policial de época (1910, Norte da França) foi o gênero que o francês Bruno Dumont praticamente inventou nesta sua volta à competição, mesclando atores de renome (Juliette Binoche, Fabrice Luchini) e intérpretes desconhecidos da região. O argumento antepõe uma degenerada família burguesa (o excessivo peso da caricatura é um dos problemas do filme) e uma antropófaga família de pescadores de uma comunidade com estranhos hábitos. Nasce um peculiar romance entre o jovem pescador Ma Loute e a rica adolescente Billie. A relação se complica com o desaparecimento de diversas pessoas, levando ao local uma improvável dupla de policiais. Transformada em fábula com elementos fantásticos, a luta de classes perde em interesse e eficácia.

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