Vinte anos depois de “O Diabo Veste Prada”, filme que se tornou um clássico cult de uma geração, com suas roupas de grife e as tiradas mordazes de Miranda Prisley, a questão permanece: valeu a pena o risco de uma sequência?

“O Diabo Veste Prada 2”, a partir desta quinta, 30, nas telas (várias salas em Londrina), tapetes vermelhos e algoritmos de vasto universo midiático, se apresenta como um filme que brinca abertamente com seu próprio legado, tentando determinar se o fascínio de uma época ainda pode dialogar com o presente ou se, inevitavelmente, está destinado a se tornar somente um ícone puro.

O filme almeja um grande retorno, mas creio que resulta ser um teste de resistência tanto na forma quanto no estilo. A sequência caminha na tênue linha entre a necessidade narrativa de contar algo novo e a inércia da nostalgia, tentando trazer à tona uma iconografia que o tempo – inevitavelmente e profundamente – reescreveu de 2006 a 2026.

A comparação com o primeiro filme é inevitável. Se aquele construiu sua força em uma tensão clara e um arco de transformação bem definido, esta sequência parece mais dispersa, menos incisiva na definição de um caminho. A narrativa tenta atualizar sua perspectiva introduzindo o tema da transformação digital, mas o faz com um equilíbrio incerto.

Por um lado, surge uma reflexão interessante sobre o declínio dos modelos tradicionais de publicação (os impressos, melhor dizendo aqui especificamente, as revistas) que já não se adaptam a 2026; por outro, esse elemento permanece superficial com muita frequência, evocado mais como um recurso narrativo do que verdadeiramente explorado.

De fato, o risco é que a mudança seja usada como pano de fundo, sem se transformar em um verdadeiro motor dramático. A mise-en-scène também reflete essa ambivalência; a direção é linear, controlada, mas raramente surpreendente. A moda continua sendo um elemento central, mas perde parte de sua função narrativa, por vezes resvalando para uma dimensão puramente decorativa.

De fato, em meio a retornos, novas alianças e conflitos sutis, a narrativa do filme se desenrola para justificar que a própria moda se torne o espelho de uma mudança mais ampla, a de um sistema implacável que força seus protagonistas a escolher entre se adaptar ou desaparecer. O elenco consistentemente excelente – uma combinação de atores que retornam e novas adições – atua em duas frentes: aquela do desejo de preservar a identidade da saga; e a outra, a necessidade de renovar sua perspectiva. No centro permanece Miranda Priestly (Meryl Street, absoluta), figura que aqui perde parte de sua intangibilidade para se tornar o símbolo de um poder em luta. Não mais apenas um ícone, mas uma personagem sob pressão, forçada a confrontar um sistema que não recompensa mais a autoridade e o conhecimento de mercado, mas sim a velocidade e a visibilidade.

O filme explora precisamente essa divisão: entre o que Miranda representava e o que o mundo se tornou. Todos os personagens parecem se mover dentro de trajetórias já conhecidas, incapazes de realmente transcendê-las. Especialmente Andy (Anne Hathaway), que poderia ter sido significativamente mais impactante.

Assim, “O Diabo Veste Prada 2” permanece uma obra suspensa em busca de equilíbrio: por um lado, o desejo de questionar o presente; por outro, a tentação de se refugiar no poder do próprio passado. O resultado é um filme sempre simpático e que pode ser visto com interesse, mas que luta para encontrar sua verdadeira essência, como se seu olhar ainda estivesse preso a um mundo que já mudou bem de aparência.

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