São Paulo, 11 (AE) - De certo modo, "O Diabo Veste Azul" segue caminho contrário de "Matrix", o destaque dos lançamentos em vídeo. Se o filme dos irmãos Wachowski tem momentos eletrizantes, mas depois recai na mesmice, o de Carl Franklin aposta na veia nostálgica - e, dentro dessa proposta, não se sai mal. Muito ao contrário. "O Diabo Veste Azul" é uma recriação, em cores, daqueles antigos filmes em preto-e-branco, cheios de climas sufocantes e diálogos afiados do cinema dito noir. Filmes policiais, às vezes tirados de romances de Dashiell Hamett ou Raymond Chandler, e que fizeram a glória de diretores como Howard Hawks, John Huston e Edward Dmytryk, para ficar nos mais óbvios.
O gênero teve sua época de ouro durante as décadas de 40 e 50. Ressurge eventualmente, e de forma brilhante, como aconteceu nos anos 70 com o maravilhoso "Chinatown", de Roman Polanski. Franklin, que é bom artesão, nem pretende ir tão longe quanto Polanski. Mas encontra seu tom e conta uma história cheia de clima e de mistério. Seu herói é Denzel Washington, que perde o emprego e, como precisa pagar a prestação da casa, resolve se colocar a serviço de um trambiqueiro. Seria um servicinho só, mas acaba dando um trabalhão danado para ele. Mesmo porque entra na história um loira fenomenal, Jennifer Beals, com todas as complicações decorrentes.
O filme obedece a algumas das convenções do noir, como narrativa em off do protagonista, que conta sua história em retrospecto. A fotografia usa, sem abusar, dos tons constrastados, que pretendem reproduzir, em cores, o irreproduzível impacto psicológico do preto-e-branco. Não poderia faltar aquela sensação difusa de que todos tentam enganar a todos e de que o mundo é feito de aparências. Além disso, é muito divertido em sua despretensão. (L.Z.O.) Servi ço - "O Diabo Veste Azul" (Devil in a Blue Dress). Dir. de Carl Franklin, com Denzel Washington. Distr.: Columbia

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