O dia em que Zuckerberg foi bloqueado
Na última quinta-feira, o WhatsApp, aplicativo usado por cerca de 100 milhões de pessoas no Brasil, foi bloqueado por determinação da Justiça por 48 horas, o motivo seria um processo criminal que corre em segredo para o qual foram solicitadas, em julho, informações do aplicativo, cuja administração não respondeu a contento.
Imediatamente, bateu uma espécie de desespero nos usuários, pondo em evidência um fenômeno de dependência absoluta da comunicação eletrônica. Algumas pessoas, especialmente as mais jovens, mostravam-se exageradamente preocupadas com a paralisação do serviço e uma avalanche de mensagens tomou conta de sites e redes sociais com reclamações que iam da ira ao humor.
Da minha parte, achei uma ironia Mark Zuckerberg, dono do WhatsApp, ser bloqueado no Brasil, motivo pelo qual ele se declarou "chocado". Achei irônico, uma vez que o Facebook, também de sua propriedade, é cheio de regras que facilitam bloqueios dos usuários que infringem, por exemplo, a determinação de "não postar nus", não importando se a nudez é artística, erótica, cultural ou de protesto. Milhares de usuários já foram bloqueados porque postaram obras de arte, fotos de movimentos feministas com mulheres de seios de fora ou mesmo de tribos indígenas. O último caso é um verdadeiro absurdo. Tendo em vista o fato do Brasil ter índios - com tribos que ainda andam sem roupa - a proibição de nus por uma rede social estrangeira choca-se com os costumes e a liberdade cultural.
Eu mesma já fui bloqueada no Facebook muitas vezes. Na última, a publicação de uma charge do ex-presidente Lula pelado com sua trupe de políticos, com um texto em alusão ao espetáculo "Macaquinhos" que causou polêmica recentemente por ter o ânus como tema principal determinou a desativação permanente de meu perfil original, obrigando-me a migrar para outro. Considero o Facebook autoritário em suas regras, tendo em vista que meu post era absolutamente contextualizado com um momento cultural e político, com um texto que citava Beckett, Hilda Hilst e a poeta Adélia Prado, autora de um doce poema sobre o ânus ao qual ela se refere na forma popular. Não preciso dizer que as denúncias aparentemente têm mais a ver com alguma retaliação pessoal, ideológica, política e, quase sempre, baseiam-se pouco em moralidade. Afinal, a rede está repleta de humor discutível, quase sempre associado ao nu feminino, quando não resvala em coisas mais graves como a exposição de menores. Tudo isso é consentido, desde que ninguém te denuncie para colocar a censura oficial em ação como aconteceu comigo.
Todo este prólogo serve para dizer que o choque de Zuckerberg com o bloqueio do seu aplicativo foi mais ou menos como alguém experimentar do próprio veneno. Um proprietário de rede censora ser censurado é uma ironia das grandes, um daqueles momentos em que a vida prega uma peça nas pessoas que nunca se imaginaram no lugar de usuários menos importantes que de repente tem seus perfis sequestrados juntamente com seus contatos eu tinha cerca de 5 mil na minha lista além de uma série de informações, inclusive de cunho autoral.
Zuckerberg sentiu-se vítima da arbitrariedade, embora a ação da Justiça, ao que consta, tenha se devido a uma boa causa, sendo que desde julho eram requeridas informações do aplicativo que não respondeu a contento. A demora ocasionou o bloqueio da última quinta-feira, quando ficou evidente o quanto os administradores de plataformas eletrônicas são insensíveis a solicitações, respondendo quase sempre aos apelos de forma desatenta. Isso toma outro rumo quando a solicitação não atendida parte da Justiça. O episódio, superado antes do prazo de 48 horas, fica marcado como o dia em que Zuckerberg experimentou o bloqueio e com ele 100 milhões de usuários que não tinham nada a ver com a história. Uma multa milionária deve resolver o problema, ao passo que milhões de usuários do Facebook - que tiveram contas bloqueadas - nunca foram ouvidos ou ressarcidos por prejuízos pessoais, materiais, autorais e até afetivos. O sequestro de contas e informações pessoais a não ser em casos extremos não se justifica num país em que a livre expressão é direito constitucional. Fica a pergunta: como agir quando passam de trator sobre as nossas leis? Também me declaro permanentemente chocada.
[email protected]





