O Dia em Que Faremos Contato
O Dia em Que Faremos Contato, seu terceiro disco, está sendo saudado por todo mundo. Os elogios têm vindo de várias gerações. O VJ da MTV, Gastão, disse que você é a grande revelação da MPB. Caetano Veloso definiu seu trabalho como espetacular. A que você atribui essa badalação tardia?
Lenine - As pessoas não me conheciam porque eu atuava mais como autor, ficava nos bastidores. Esse disco é uma consequência de meu trabalho como compositor. Tive tempo para fazê-lo como eu queria. Os discos anteriores foram feitos em parceria.
O título, a capa e o encarte - todos com referências à ficção científica - já chamam a atenção antes mesmo da audição das músicas. Qual é a influência da ficção científica em seu trabalho?
Lenine - É total. Eu sou completamente apaixonado por ficção científica. Tenho uma coleção de 2 mil títulos desse gênero de literatura em casa. Meu elo com a criação é a visão e não o ouvido. Aliás, não sou muito de ouvir música. Costumo dizer que meu processo de criação se apóia em três pilares: a ficção científica, as histórias em quadrinhos e o cinema. Eu trabalho cada música como se fosse um roteiro de curta-metragem.
O personagem da capa lembra o Flash Gordon...
Lenine - O desenho da capa é a reprodução da primeira edição brasileira de uma série de ficção científica lançada na década de 50 pela Ediouro e que se chamava Futurâmica. Antes de fazer o disco, eu já tinha essa capa na minha cabeça.
Quando você foi seduzido pelos recursos tecnológicos que aparecem em seu disco combinados à musicalidade brasileira?
Lenine - Sempre tive uma visão estética cosmopolita, universalista. Tenho a teoria de que a pessoa se forma em termos intelectuais até os 17 e 18 anos, depois existe um aprimoramento. Vejo a eletrônica e a tecnologia como ferramentas a serviço da criatividade. Embora ela possa ser usada de forma pasteurizada, acho que é possível usar a tecnologia digital, os loops e os samples de maneira interessante. Para esse disco, me concentrei durante um mês para montar um banco de ruídos de onde extraí barulhos na Internet, sons do brinquedo do meu filho, copos etc.
Ao lado dos sons eletrônicos, suas composições apresentam um apelo fortemente percussivo, o que revela afinidades com a turma do mangue beat (Chico Science, Mundo Livre S/A etc).
Lenine - Na verdade, eu me sinto muito mais um percussionista do que um violonista. Acho que a grande conquista do mangue beat foi realizar aquilo que não me foi possível quando eu ainda estava em Recife. Os garotos estão criando um mercado lá. A juventude descobriu a auto-estima e a formatação de um som que é completamente novo no Brasil. A morte de Chico foi uma grande perda. Mas não podemos pensar o mangue sem pensar que houve antes Luis Bandeira, Capiba e Alceu Valença. A cultura funciona como o coração, como uma coisa cíclica, que vai e vem, sístole e diástole.
Você enquadra seu trabalho dentro da MPB, do pop ou você acha que essa distinção não faz mais sentido?
Lenine - A falta de estilo talvez seja o meu estilo. Meu elo propulsor é a idéia, depois é que vou me apropriar de uma musicalidade para viabilizá-la. Acho que existe uma geração aí, da qual faço parte, que já não faz mais MPB mas Música Popular Planetária. Esse pessoal não se liga pela faixa etária. Mas por terem uma mesma visão da arte, por serem cúmplices na diferença. Itamar Assumpção, Edvaldo Santana, Paulinho Moska, Arnaldo Antunes, André Abujamra, Zélia Duncam, Arícia Mess, Chico César, Zeca Baleiro, muita gente.
Fazendo um exercício de futurologia, você acha que daqui a dez anos as pessoas vão olhar para trás e falar aquela turma foi divisor de águas na música brasileira?
Lenine - Acho que sim. Até pouco tempo, a música brasileira estava dividida em guetos, em ilhas. Havia grupos de MPB, grupos de rock, grupos de samba etc. Hoje existe esse aglomerado de artistas que deseja acabar com a solidão. Somos ilhas cercadas por pontes por todos os lados. A ponte, aliás, é o que simboliza esse meu último disco. É o elo de conexão. Em qualquer lugar do mundo há guetos, povo árabe, amarelo, negro. No Brasil, existe a miscigenação, a mistura. Temos pouco tempo de história, por isso tudo se mistura o tempo todo. É aqui que as coisas estão acontecendo.





