O filme ‘‘O Dia da Caça’’, de Alberto Graça abre dois novos caminhos: primeiro, o do Circuito Universitário de filmes nacionais, depois, o arremesso profissional do ator Paulo Vespúcio. O filme estréia na próxima sexta-feira em circuito nacional, mas já está sendo exibido e debatido nas universidades brasileiras. No dia 10, o filme será exibido no Festival de Miami, na mostra competitiva. A partir daí, tem início sua carreira internacional.
Com uma hora e 53 minutos de adrenalina pura, o ‘‘O Dia da Caça’’ trata de uma perseguição envolvendo o narcotráfico e seus tentáculos. ‘‘Desde o início da montagem estamos fazendo testes com o público e tem sido muito orientador’’, afirma Graça.
Os testes foram feitos em 42 sessões e no final, o público foi convidado a responder um questionário. 84% caracterizaram o filme como excelente ou bom e 96% o indicariam para outras pessoas. Além desses testes, Alberto Graça fez sessões de leitura do roteiro com platéias diferenciadas. ‘‘O resultado foi muito bom e vamos continuar fazendo isso.’’
Como exemplo, Graça cita a cena de um isqueiro, que originalmente aparecia cinco vezes, e com as discussões, baixou para três inserções. ‘‘Os problemas estruturais foram resolvidos.’’
O filme começou a ser rodado em final de 1997 e ficou pronto em 1999. A história de ‘‘O Dia da Caça’’ foi estruturada de modo que todas as pessoas pudessem entendê-lo. O ponto de partida foi uma história bastante simples contada pelo lado mais complicado. O espectador sabe mais que os personagens. ‘‘Pudemos fazer elipses muito grandes o que aumenta a inquietação do público.’’
Luz na Amazônia: um
desafio para a produção
Graça conta que filmar na Amazônia foi complicado. A equipe contava com 70 pessoas. Na seca, o rio abaixava cerca de um metro por dia e o cenário tinha de descer tracionado. A correnteza levava os barcos para mais de 300 metros do local onde deveriam ficar. A luz na Amazônia foi outro desafio da produção. ‘‘Os negativos são feitos para climas temperados, mas como estávamos muito próximos ao Equador, era preciso inverter a curva sensitométrica. Para compensar, usamos luz artificial, mesmo estando num local superexposto. Vários fatores de luz na Amazônia são fascinantes, com fenômenos atmosféricos e meteorológicos, tempestades elétricas, parte do céu chovendo e outra parte com sol maravilhoso. Aproveitar estes aspectos não era a intenção do filme. Nós queríamos mostrar a Amazônia e Brasília por intermédio do olhar dos personagens. Da mesma forma não glamourizamos os corpos dos atores.’’
A composição dos personagens foi também realizada de forma bastante profissional e trabalhada. Marcello Antony (Nando), por exemplo, ficou três meses num quarto lendo poesia, para que sua voz ficasse mais modulada. A luz do personagem tem sempre uma parte de sombra. Paulo Vespúcio recebe luz de baixo para cima, lembrando um lobisomem. Seus gestos são baseados no gestual de animais, como o cavalo, o escorpião, o lobo. Por sua vez, a atriz Barbara Schulz recebe luz frontal, como uma Eva. Os tons de verde, marrom e negro do cenário da Amazônia, também ajudam na composição dos personagens, que vão se deteriorando ao longo da trama.
No roteiro, a opção foi abordar o tráfico de drogas, não pela visão da Polícia Federal, dos camburões, dos corpos desovados. Arriscaram outros enfoques. Mas não tinham informação. O dia em que o filme ficou pronto foi o mesmo da cassação do Hildebrando Pascoal. A base de pesquisa para o roteiro foram relatórios da ONU e da Unesco, com mais informações do que os oficiais.
As filmagens consumiram dez semanas, mas houve um intervalo de seis meses, por causa da alta do dólar. No dia em que a primeira cópia chegou os estúdios de som de Los Angeles, Graça ouviu de uma pessoa que as falas estavam ótimas, mas melhoravam muito quando os idiomas usados eram francês e espanhol. ‘‘Com isso quero mostrar o grau de preconceito para com o cinema nacional. Claro que há uma explicação: quando a gente precisa ler a legenda, os olhos competem com os ouvidos e na nossa língua isso não acontece.’’
O preconceito com relação ao cinema nacional está apoiado num tripé: primeiro, de que é só sexo e choro. O que é verdade, porque no final dos anos 70, de cem filmes, trinta eram pornochanchadas. Esses filmes ofuscaram os outros 70. Por outro lado, definem o cinema brasileiro como ‘‘cabeça’’, com linguagem difícil que nem os universitários entendem, se não forem preparados anteriormente; e por último, as pessoas dizem que o povo que aparece é feio. ‘‘Mas retruco dizendo que país sem cinema é país sem espelho, usando uma frase de Luiz Carlos Barreto.’’
Circuito Universitário
e cinema sem tela
Além de exibir filmes nas universidades brasileiras, a idéia é estruturar a rede do projeto Cinema em Movimento, para passar três filmes por semestre em várias cidades. Os agentes de apoio em cada cidade, têm também a função de fiscalização. Eles checam se o trailer e os cartazes estão nos cinemas e isso melhora a qualidade do relacionamento com a distribuição.
Para o piloto do circuito Sem Tela, em Curitiba foi escolhida a Vila das Torres. No Rio de Janeiro, a sessão foi realizada na Favela da Maré, onde os produtores tiveram de pedir autorização aos traficantes. ‘‘Na Maré teve receptividade muito maior do que se esperava. 90% responderam o questionário.’’ A partir do dia 14 de junho, ‘‘O Dia da Caça’’ será exibido na Vila das Torres, e nas ruas da cidadania do Boqueirão, São Braz, Santa Cândida e Fazendinha, em Curitiba. Com essa rede, em todas as regiões do Brasil, o cineasta pretende driblar o problema de distribuição e oferece a estrutura para todos os diretores.
O próximo filme de Alberto Graça será uma história de amor intitulada ‘‘Sombras do Paraíso’’. Graça está escrevendo o argumento e espera iniciar a captação ainda este ano, para rodar no final de 2001.

mockup