O dia-a-dia da produção do filme 'Os Xeretas' está na Internet
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domingo, 16 de abril de 2000
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 17 (AE) - Se você é internauta e fã de cinema tem um novo endereço para navegar: www.osxeretas.com.br. Acessando-o, entrará no universo mágico de "Os Xeretas", uma produção da Magia Filmes, com participação da TV Cultura, por meio do PIC TV, que está sendo rodada em Castro, a 150 quilômetros de Curitiba, no planalto paranaense.
"Os Xeretas" destina-se ao público infanto-juvenil. E já é um filme importante na história do cinema brasileiro. A exemplo do que ocorreu com "A Bruxa de Blair" nos EUA, o espectador pode saber tudo sobre a produção no site. Isso não é novidade. A novidade é que foi criado também um diário de cena. É o diário da filmagem, atualizado diariamente, com as imagens rodadas no mesmo dia ou no anterior.
"O site está sendo muito acessado, principalmente aqui no Paraná, onde a mídia deu grande destaque ao fato", informa o diretor Michael Ruman, falando pelo telefone, após mais um dia de filmagem. "Nos EUA, A Bruxa de Blair criou um fenômeno; acho isso mais interessante que o próprio filme". Ele não pode garantir que todo mundo que acessar o site irá ver "Os Xeretas", mas acredita que, atiçada a curiosidade e acompanhando o dia-a-dia da produção, mais e mais espectadores ficarão com vontade de conferir o resultado.
Ruman, que não diz a idade ("Põe que é mais de 15, mas com a disposição de 12"), é estreante no longa, mas está longe de ser um estreante no cinema. Já fez curtas (Bammersbach, 20 Minutos, Epopéia e Expresso) e trabalhou, como montador e/ou editor de som, em "Castelo Rá-Tim-Bum", de Cao Hamburguer, "No Coração dos Deuses", de Geraldo Moraes, "Anésia", de Ludimila Fe, "Olhos de Vampa", de Walter Rogério, e "A Reunião dos Demônios", de Cecílio Neto. Vários desses filmes são produções para o público infanto-juvenil, que Ruman considera carente de alternativas no cinema brasileiro. É o público para o qual ele gosta de trabalhar.
Ele roda amanhã (18) uma cena importante - a do resgate das crianças numa ponte suspensa como aquela de "Indiana Jones e o Templo da Perdição". A ponte foi construída num imenso galpão transformado em estúdio, uma das benfeitorias que a Magia fez em Castro e pretende legar à cidade. "Também reformamos o cinema na praça central, que estava desativado e virou nossa central de produção, construímos outro estúdio com o cenário de uma rede de túneis e empregamos mão-de-obra local", informa o produtor Roberto dávila, acrescentando que é uma forma de retribuir o apoio que recebeu da prefeitura de Castro.
"A cidade está querendo desenvolver novas opções de faturamento; quer virar centro turístico; o filme poderá contribuir para isso", diz o produtor. Ele informa que o orçamento total é de R$ 2,9 milhões, dos quais ainda falta captar, pelas leis de incentivo, R$ 800 mil. O que falta é basicamente o dinheiro para o lançamento. Efeitos reduzidos - As cenas rodadas amanhã estarão quarta-feira na rede, no diário de filmagem de "Os Xeretas". Você vai acompanhar passo a passo a tentativa de resgate, com toda a emoção que o diretor pretende imprimir à sequência. Ruman está reduzindo os efeitos computadorizados ao mínimo (só não abre mão de dois). Ele acha que, com o apoio da equipe, está conseguindo soluções mecânicas para tudo, no próprio set. "Não há por que fazer efeito pelo efeito", diz. Acha que, além de mais barata, a solução mecânica também é mais criativa. "Para efeitos especiais já existe Hollywood".
A experiência como montador é decisiva para o seu trabalho como diretor. Ele já roda a cena pensando como ela será na montagem. "Quando sou só montador posso culpar o diretor se falta esse ou aquele plano; como diretor, o que vou fazer - culpar a mim mesmo?", pergunta. Qual está sendo sua maior dificuldade? "É trabalhar com tanta gente; comando uma equipe que chega a ter 150 pessoas, todas ao meu redor, esperando e até cobrando indicações".
A rodagem foi prevista para quatro semanas. Faltam duas. Antes que o primeiro plano fosse rodado, Ruman trabalhou quase dois meses com os atores mirins, fazendo um laboratório com eles. Foram escolhidos entre centenas de jovens. Duda, Tato e Nick, interpretados por Fábio Lins, José Eduardo Gomes e José Luiz, são os xeretas do título, garotos entre 12 e 13 anos que descobrem uma rede de túneis localizados debaixo da cidade e vão além - muito além - do que imaginam.
Tudo começa quando os xeretas encontram uma menina com um medalhão que abre os portais do tempo e do espaço. E começa a aventura, centrada no roubo do tal medalhão, sem o qual a menina morrerá em 24 horas. Os vilões são um tal professor Stegner e seu assecla, Estopa. Estão em Castro à espera de um comprador para a relíquia. E não se pode esquecer de Erasmo, o bad boy da trama, criado por Fábio Henrique Cruz. É o líder da turma dos meninos maus da história e inimigo jurado de Duda. Adora bater, mas não briga sozinho. Chama a sua turma na hora do pau.
Stegner, o vilão, é interpretado por Francisco Cuoco (seu assecla é Roberto Arduin, que ficou conhecido como o tio da Sukita). O astro das telenovelas pegou gosto pelo cinema. Pode ser visto nas telas em "Gêmeas", a boa adaptação que Andrucha Waddington fez de Nélson Rodrigues, dando um tratamento de thriller e até de horror à história que outro diretor talvez visse como melodrama.
Ainda dentro do avanço tecnológico que caracteriza a produção de "Os Xeretas", Cuoco aceitou participar de um chat. Durante duas horas conversou com internautas que lhe perguntaram tudo sobre a vida, a carreira na TV e a sensação de fazer cinema. "Também querem que eu participe de um chat e eu aceito, claro, mas só depois que terminar essa loucura da rodagem", diz o diretor. O filme entra imediatamente a seguir na fase de montagem. A estréia está prevista para as férias de 2001. "Precisamos atingir nosso público-alvo", observa Ruman. Roberto dávila concorda. Banho-maria - Vale contar a história da gênese de "Os Xeretas". Ruman, amigo de Eliana Fonseca, costumava esperá-la nos bastidores, quando ela fazia uma peça de teatro. Começou aí a colocar suas idéias no papel e a sintetizar a trama de uma grande aventura para crianças (e adultos que não assassinaram sua infância). Em busca de capital, ligou-se a um grupo francês para fazer um piloto de 20 e poucos minutos. Os franceses interferiram demais, queriam mudar muita coisa, senão tudo. Ruman deixou o projeto em banho-maria.
Foi trabalhar na Magia, que produziu, entre outros, "Anésia" e "Olhos de Vampa" (outros títulos da empresa: "Navalha na Carne", de Neville DAlmeida, "A Causa Secreta", de Sérgio Bianchi, "Louco por Cinema", de André Luís de Oliveira, e "16 Meninos da 13 de Maio", documentário do próprio Roberto dávila, de 30 minutos, que foi finalista no Festival de Cinema e Televisão de Nova York). "Os Xeretas" ganhou a forma atual.
Os acordos de produção prevêem a criação de toda uma linha de brinquedos e acessórios infanto-juvenis. A Estrela está na jogada. Dávila posa com um merchandising quase imperceptível - um brinquedo integrado à ação, ao virar engenhoca usada pelos xeretas para espionar os vilões. Ainda no encaminhamento da produção, foi criado o site. Até aí, tudo bem: vários filmes possuem sites. Pode-se até dizer que, com o desenvolvimento da Internet, eles se tornaram necessários e até obrigatórios.
O diferencial de "Os Xeretas" é o diário de cena. E também a sala de imprensa, que traz sempre as últimas novidades dos xeretas. Pode ser que o filme não repita o fenômeno de "A Bruxa de Blair", mas pode ser que sim. A aposta está feita. Os internautas estão com a palavra. Pode não depender só deles, mas a rede poderá ajudar a fazer desse filme um evento no cinema brasileiro do começo dos anos 2000. Com "Os Xeretas", o futuro chegou.


