Selecionado para a mostra competitiva do Festival de Cannes mas já lançado comercialmente nos Estados Unidos, ‘‘The Pledge’’, terceiro filme de Sean Penn como diretor, teve recepção muito discreta nas bilheterias americanas. A carreira do filme na Europa, no entanto, ainda não começou, e tem boas chances com o foco lançado sobre ele a partir de Cannes. ‘‘The Pledge’’ dividiu opiniões entre os jornalistas que cobrem o festival. ‘‘Mainstream’’, hollywoodiana para muitos, filme fácil, clichês, etc. Inteligente, grave, bem resolvido para outros.
‘‘The Pledge’’ – alguma coisa como a promessa, o juramento –, com lançamento brasileiro da Paris Filmes previsto para junho, é um policial absorvente, intensamente dramático e comprometido até as entranhas com o personagem e a interpretação de Jack Nicholson. Ele vive um velho tira solitário, Jerry Black. A algumas horas da aposentadoria como detetive da polícia de Baker County, Nevada, ele é confrontado com o assassinato de uma garotinha de 8 anos, violentada e degolada na montanha. Destacado para dar a notícia à família da menina, Jack acaba prometendo, ‘‘pela salvação da própria alma’’, encontrar e prender o culpado. Algumas horas depois a polícia encontra um índio, visto perto do local onde foi encontrado o corpo. Preso, é comprovado seu envolvimento em outra violação. Com problemas mentais e pressionado, confessa o crime e depois se suicida.
Mas o instinto de Jerry lhe diz que o culpado ideal não é o culpado certo. Para encontrar o assassino, que Jerry descobre ter feito outras vítimas, ele aplica sua tática favorita de pescador agora aposentado: jogar a isca e esperar, sem pressa. Nem tudo, entretanto, vai depender de como Jerry organiza sua estratégia. O imponderável também tem seus planos, e a justiça percorre estranhos caminhos. No suntuoso e inquietante cenário das montanhas de Nevada (locações canadenses), Penn sustenta uma tensão aterrorizante, ao mesmo tempo em que constrói o retrato pleno de humanidade de um homem e de uma comunidade rural que ignora a ameaça que espreita ao redor. Adaptado de um romance escrito em 58 pelo suiço Friedrich Durrenmatt, o roteiro é preciso no corte existencialista do personagem de Nicholson. E pela ampla envergadura da concepção geral da realização comandada por Sean Penn, ‘‘The Pledge’’ confirma o talento de um novo grande do cinema americano.
Acima de tudo lamentando não contar com Jack Nicholson em Cannes para apresentar ‘‘The Pledge’’ - o ator está em filmagens nos confins do Alaska -, Sean Penn, 40 anos, não deixa por menos: ‘‘Gostaria muito que ele viesse defender o filme comigo. ‘The Pledge’ é muito mais dele que meu’’. Muita gente viu em Sean Penn o Robert De Niro dos anos 90. Nada mais enganoso, o que também é um elogio, sem diminuir De Niro. Ex-marido de Madonna, ator cada vez mais bissexto, Penn prefere ficar longe da agitação quando vem a Cannes. E foi num exclusivo hotel de Cap d’Antibes, ao redor de Cannes, que o diretor falou à Folha durante entrevista a um grupo reduzido de apenas seis jornalistas e com tempo de 20 minutos rigorosamente cronometrado.
É seu segundo filme dirigindo Jack Nicholson. Você o considera seu ator-fetiche? Como é sua relação com ele?
Desde 1995, quando fizemos juntos ‘‘The Crossing Guard’’, estava procurando outro roteiro em que pudesse dirigir Jack novamente. Estava lendo o livro de Durrenmatt quando esta história se impôs naturalmente. Jack é daquele tipo raro de ator que, num set, comunica uma energia a toda prova, uma espécie de loucura. Não é apenas um intérprete brilhante mas um amigo verdadeiro.
Por que um tema como ‘‘The Pledge’’?
Me agrada muito a ambiguidade moral de qualquer promessa, e no caso específico do filme a maneira como Jerry se coloca diante dela. O filme não é sobre um assassino, mas sobre quem investiga. Gosto da idéia de que é uma história de destino e não de lógica. Há centenas de filmes de detetives buscando assassinos, mas não conheço nada que se pareça com esta história. Ela é fascinante, única. O tema principal é que às vezes coisas terríveis se aproximam de pessoas de bem, de gente que quer apenas fazer coisas dignas. O herói do filme se debate com pequenos e grandes problemas.
Para você, como é ser ator? E dirigir?
Como ator acho que estou perdendo o prazer, não aprecio mais o trabalho de interpretar, só quando vejo o de outros, de dentro para fora. Para mim sempre foi muito extenuante, depois de cada filme tinha que sair recolhendo meus pedaços. Dirigir já é outra coisa. Conheço bem o coração de minhas histórias, sei captar o melhor que podem dar meu atores e nunca hesito, durante a montagem, de cortar aquilo que acho que não funciona.
Como é dirigir sua mulher, Robin Wright-Penn?
Robin é uma atriz instintiva, o que é tudo o que mais gosto num ator. Eu já dizia isso antes de a encontrar e casar com ela. E ela tem incrível capacidade de tocar a verdade. Por isso ela é sempre a pessoa ideal para ser consultada.

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