O destino nas mãos dos pés
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
ReproduçãoJoão Gilberto Noll: obras sem humor, sem felicidade, sem futuroAlgumas abelhas procuram néctar em flores de belos jardins ou mesmo em sedutoras flores silvestres. Pousam de pétalas em pétalas sugando a matéria prima para o doce mel. Outras abelhas percorrem rotas diferentes, não procuram néctar em flores propriamente ditas, mas em latas de refrigerante jogadas na beira de estradas, em copos sujos sobre a pia, em tocos de cigarros marcados de açucarados batons, em sacos de lixo aprisionando sobras de canas chupadas em tardes quentes. São abelhas solitárias que se desligam das rotas comuns para buscar uma outra razão para o ato de fazer mel.
A literatura do escritor gaúcho João Gilberto Noll segue as mesmas pegadas destas abelhas outsiders que se distanciam dos jardins floridos e seguem em busca do néctar de uma existência sem glória. Nascido em Porto Alegre em 1946, Noll é hoje um dos grandes criadores da contemporânea literatura brasileira.
A Editora Companhia das Letras está lançando oito obras de João Gilberto Noll, reunidos num único volume. Romances e Contos Reunidos, um catatau de 800 páginas, traz os romances A Fúria do Corpo (1981), Bandoleiros (1985), Rastros do Verão (1986), Hotel Atlântico (1989), O Quieto Animal da Esquina (1991), Harmada (1993), A céu aberto (1996) e do livro de contos de estréia do escritor O Cego e a Dançarina (1980). Como anexo, três contos esparsos.
Panorama Todas essas obras reunidas num único livro oferecem um panorama completo da perturbadora obra de Noll. Com um universo repleto de temas recorrentes, seus personagens vagam sem sentido, sem destino, sem origem. Não há passado determinante, não há futuro importante. São personagens fugindo de alguma coisa para chegar a lugar nenhum como se o destino estivesse nas mãos dos pés.
Em suas obras não existe humor, não há felicidades, não existe futuro (melhor ou pior), não há nenhum tipo de otimismo de plantão, não existem enfeites mentais para conferir sentido ao que não possui sentido, não pinta a vida com hidrocor de última geração, não corre contra os acontecimentos psíquicos, não escolhe uma moral escrita em letras douradas, não possui finais emocionantes. Enfim, não mata a sede em garrafas de água mineral, sacia a sede em poças de água formadas pela chuva.
As narrativas de Noll rejeitam a noção cronológica dos fatos. Nem todas as causas possuem um efeito e nem todo efeito decorre de uma causa. Passado e futuro se fundem no presente dentro da banheira do nada.
A Fúria do Corpo, primeiro romance do escritor, é seu texto mais radical. Com uma linguagem embriagada, a narrativa exige um largo fôlego do leitor. O texto sufoca pela intensidade narrativa, como se o narrador desejasse ver o leitor sem ar, desesperado, pedindo uma pausa para respirar com tranquilidade. Pausa que não encontrará. Não há uma história linear propriamente dita a ser contada pelo romance, apenas a vida do narrador e sua amada, Afrodite, perambulando pelas ruas do Rio de Janeiro como andarilhos sem destino. Seus corpos são o sentido de suas existências, a forma de se relacionarem com o mundo. Seus corpos são a única coisa que realmente possuem, e o sexo um sentido para a existência deles. Sexo em suas mais variadas formas, nomes e cores.
Diálogo Os outros romances que integram o volume - Bandoleiros, Rastros de Verão, Hotel Atlântico, O Quieto Animal da Esquina, Harmada e A Céu Aberto - dialogam claramente entre si. É como se o personagem narrador (sempre em primeira pessoa) trocasse de roupa, nome e idade de um romance para outro. Sempre em trânsito, entrando e saindo de hospitais e hospícios, andando sem destino deixando que o acaso escolha o trajeto. A ausência territorial, a pulverização do centro, o desagregamento contemporâneo elevado como elemento básico do universo narrativo.
Os personagens parecem mostrar que a vida simplesmente ficou esquisita, e procurar ou inventar um sentido para ela, deixou de ser significativo, tornou-se visivelmente ilusório. A única ação possível estaria em soltar as amarras do ancoradouro, cortar a corda da âncora e abandonar o barco ao cuidados do acaso sem destino. O otimismo pode ser uma lembrança comprada em rodoviária. A melancolia pode ser um belo céu azul pontuado de branco nuvem.
O interessante é que, atravessando o cotidiano, nos comovemos com abelhas voando de flor em flor pelos jardins e, ao mesmo tempo, admiramos abelhas beijando latas de refrigerante na sarjeta, embalagens de sorvetes pelas calçadas, copos sujos sobre a pia e sacos de lixo de lanchonetes. Não se trata de um paradoxo clássico, mas um paradoxo possível somente nos dias atuais, onde a maior disciplina é manter-se em zero absoluto.
Palavras de João Gilberto Noll: Escrevo porque está doendo organicamente.
Romances e Contos Reunidos - de João Gilberto Noll, Editora Companhia das Letras, 785 páginas, capa dura, R$ 49,00/Livraria Rosa do Povo.





