"O Destino" está no primeiro pacote que chega este mês às locadoras
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quarta-feira, 05 de maio de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 06 (AE) - O lançamento em vídeo de "O Destino", 32.º longa-metragem do egípcio Youssef Chahine, significa uma rara oportunidade para o cinéfilo. Permite que conheça um cineasta famoso em muitos países, mas lamentavelmente quase desconhecido no Brasil. Mais que um diretor popular, fora do seu país Chahine é autor de prestígio. Para se ter idéia, ganhou uma edição especial da revista "Cahiers du Cinéma", o que não é homenagem que se preste a qualquer um.
Mas, acima de tudo, Chahine é aquele tipo raro de artista que pode ser apreciado tanto pelo espetáculo que encena quanto pela profundidade das idéias que veicula em suas obras. Não por acaso - e isso o espectador poderá conferir assistindo a "O Destino" - suas referências se distribuem entre os mistérios do Islã e a clareza narrativa do melhor cinema americano, de que é apreciador. Chahine conta que, antes de começar as filmagens, preparou o espírito relendo a obra de Alexandre Dumas; quando se cansava de ler os romances, colocava um bom faroeste no videocassete.
Apesar desse aquecimento com narradores ocidentais, a história que tinha para contar era profundamente enraizada no Oriente. "O Destino" é a história do filósofo Averróis, andaluz, intérprete de Aristóteles e, à sua maneira, um iluminista avant la lettre, isto é, pregador da tolerância, da razão e da convivência entre os diferentes. Atitude raramente associada à época em que viveu, de 1126 a 1198.
O Averróis de Chahine é pintado como uma espécie de herói intelectual do mundo árabe. Na Córdoba islâmica, o filósofo vê crescer sua influência, formando uma importante escola de pensamento. Enciumado, o califa Al Mansur passa a combatê-lo e, finalmente, ordena que todos os seus livros sejam queimados. Mas Averróis tem aliados e esses se oferecem para fazer cópias dos livros condenados e levá-las em segurança para além das fronteiras do Islã. É a luta da inteligência contra o obscurantismo, algo parecido com a fábula moderna de Fareinheit 451, filmado por François Truffaut. Se os livros devem perecer, que as suas idéias permaneçam na memória dos homens. Reação - O tema da tolerância não foi escolhido por acaso. De certo modo, "O Destino" significa um diálogo crítico de Chahine com seu filme anterior, "LÉmigré", inédito no Brasil. Lançado com grande estardalhaço, "LÉmigré" retrata um profeta
o que é proibido pelo Corão. A censura egípcia deixou passar, mas vendo o sucesso da obra, resolveu proibi-la. Chahine compreensivelmente ficou revoltado e passou a refletir sobre o assunto.
Decidiu voltar àquela que é considerada a idade de ouro do islamismo, quando muçulmanos, cristãos e judeus conviviam pacificamente. É possível que haja certa idealização do Islã da Andaluzia, como ele é retratado por Chahine. Mas parece que eram mesmo tempos mais civilizados, a julgar pelos integrismos e ódios raciais e religiosos que pululam neste fim de milênio, Kosovo sendo apenas o caso mais evidente. Visto por esse ângulo, "O Destino" é, também, uma interessante reflexão sobre a noção de progresso. Chahine parece duvidar de que, em determinados aspectos, estejamos em melhores condições que nossos semelhantes do século 12. Uma dúvida razoável.
"O Destino" pode ser visto, portanto, como justa reação de um artista contra o cerceamento da liberdade de expressão. Astuto, Chahine buscou uma figura lendária da sua cultura e a usou como símbolo dessa luta milenar entre inteligência e trevas. Significativamente usa uma frase atribuída a Averróis como divisa de seu filme: "As idéias têm asas; uma vez lançadas ao ar, nada pode detê-las".


