Se o destino pode significar tudo para um homem, o caminho que ele percorre procurando seu próprio destino pode significar mais. Alguns homens atravessam desertos para encontrar um calmo lago de água fresca, o destino. Outros, atravessam desertos, pântanos, mares, florestas, montanhas e cerrados e não conseguem encontrá-lo. Isso não significa que esses são homens sem destino, mas que o destino desses homens é o eterno procurar. Possuem como destino procurar o próprio destino. Procurar é destino.
Aparentemente, esses homens tocam seus destinos apenas na hora da morte. Isso não significa, necessariamente, uma existência profundamente trágica, mas apenas uma existência. Na realidade esses homens tocam o destino, mesmo sem percebê-lo, a cada ato que executam, a cada passo dado, a cada olhar. Em suas vidas, o destino sempre está aqui e agora. Sem terem consciência disso, passam a vida em eterna procura (o território da dor).
Um homem que se encaixa perfeitamente nessa contexto é Billy Parham, personagem do escritor norte-americano Cormac McCarthy no romance ‘‘A Travessia’’ que a Editora Companhia das Letras acaba de lançar. ‘‘A Travessia’’ é a continuação - que pode ser lida de maneira totalmente independente - de outro romance do escritor, ‘‘Todos os Belos Cavalos’’ (Companhia das Letras, 1993).
Cormac McCarthy ambienta suas histórias na região de fronteira México-Estados Unidos, palco do lendário gênero ‘‘western’’. Parte de um universo regional para compor uma ficção que toca o âmago dos sentimentos humanos desprovidos de fronteiras. Em sua narrativa, o ambiente natural é um elemento que chega à categoria de personagem.
‘‘A Travessia’’ seduz de maneira indireta, lentamente. Se desloca como o sol. Ao contar a história de Billy, narra a história daqueles que passam por seu caminho - e a vida de Billy se resume em andar, nunca ficar num mesmo lugar mais que um dia, dormir sob uma árvore ao lado de uma fogueira. Suas andanças, sobre o cavalo, sem dinheiro, quase sempre são desprovidas de destino. Quando precisa de um objetivo, cria na hora, ao acaso. Seus objetivos aparecem com o vento e partem da mesma forma.
Billy, apesar de ter apenas 16 anos, é um homem. É o tipo de ser humano que não passou pela infância, nasceu na vida adulta. Trabalha na fazenda do pai, sol a sol, ao lado do irmão menor, Boyd. Um belo dia um lobo começa a matar as novilhas e Billy é encarregado de caçá-lo espalhando armadilhas pelos campos. O garoto consegue capturar o lobo, na verdade uma loba prenha. Presa na armadilha, não consegue matá-la e resolve devolvê-la ao lugar de onde veio, as montanhas do México.
Amarra o animal e, sem avisar ninguém, segue uma solitária viagem pelos áridos campos da região. Uma viagem onde homem, cavalo e loba, precisam estar unidos pra sobreviverem. Billy passa por todo tipo de dificuldade no intento de atingir seu objetivo: libertar a loba em seu território natural. Uma relação entre homem e animal selvagem ganha corpo. Próximo de atingir a região procurada, a polícia confisca o animal entregando-a à espetáculo de luta de cão.
Depois de ver o animal lutar desesperadamente com dezenas de cães treinados, Billy comovido, resolve fazer aquilo que devia ter feito quando capturou-a na armadilha, matá-la. O tiro de misericórdia. Após esta experiência, Billy, após muitos meses, volta para a casa e encontra os pais assassinados por ladrões de cavalo. Sem casa e sem família, cai definitivamente na estrada sem destino, levando consigo o irmão, Boyd.
Elege como objetivo, por acaso, a recuperação dos cavalos roubado e mais uma vez atravessa a fronteira do México. Nessa viagem, perde o irmão, perde os cavalos, mas mesmo assim continua caminhando a esmo. Sua vida assume a forma do eterno andar atrás de algo que não sabe. As pessoas que encontra pelo caminho, aquelas que lhe oferecem comida, vão narrando histórias de reflexões sobre a vida como um todo. Histórias que refletem a própria vida de Billy.
Um simples camponês, por exemplo, ao vê-lo subir no cavalo para partir depois da refeição oferecida resume sua condição nas seguintes palavras:Disse que deveria parar com as perambulações e encontrar para si mesmo um lugar no mundo porque a perambulação se tornaria uma paixão e por essa paixão se apartaria dos homens e por fim de si mesmo. Disse que o mundo só podia ser conhecido tal como existia no coração dos homens. Pois embora parecesse um lugar que contivesse os homens era na realidade um lugar contido dentro deles e por esse motivo para conhecê-lo era preciso olhar para dentro de si e conhecer o coração e para isso era preciso viver com os homens e não simplesmente passar entre eles.
Um cego que encontra pelo caminho, ao contar-lhe sua própria história, lembra que o mundo só existe quando há uma testemunha de sua existência:O fato é que a imagem do mundo é tudo o que os homens conhecem e tesa imagem do mundo é perigosa. Aquela que lhe foi dada para ajudá-lo a seguir o rumo do mundo também tem o poder de impedi-lo de ver onde reside o verdadeiro caminho.A chave para o paraíso tem o poder de abrir os portões do inferno. O mundo que ele imagina ser cibório de todas as coisas divinas irá se transformar em nada mais do que pó diante dele. Para o mundo sobreviver é preciso que ele seja preenchido todos os dias.
Um cigano, tentando salvar seu cavalo da morte, enquanto prepara o remédio, oferece um aviso a Billy: Disse que provavelmente ele teve sorte naquela noite porque a chuva manteve dentro de casa aqueles que em outra circunstâncias teriam saído mas disse que a chuva amiga também pode ser traiçoeira. Disse também que enquanto a chuva caía com a vontade de Deus o mal escolhia sua própria hora e aqueles a quem o mal buscava talvez não fossem inteiramente desprovidos de alguma treva. Disse que o coração traía a si mesmo e que o mal em geral tinha olhos para ver aquilo que estava oculto do bom.
Um adestrador de cavalos, ao ver Billy debatendo-se entre fronteiras e destinos, dá seu recado:O mundo não tem nome. Os nomes dos cerros e das serras e dos desertos existem apenas nos mapas. Damos nomes a eles pra não nos perdermos no caminho. No entanto porque já tínhamos nos perdido no caminho é que pusemos esses nomes. O mundo não se poder perder. Nós é que o perdermos. E porque esses nomes e essas coordenadas são nomeações nossas é que eles não podem nos salvar. Não podem encontrar de novo para nós o caminho.
Mesmo assim Billy segue caminhando, não consegue parar. O destino do leitor não é chegar à última página de ‘‘A Travessia’’ e ler o ponto final. O destino do leitor é seguir os passos de Billy até seus pés se encherem de bolhas.O destino é ter bolhas nos pés.
•A Travessia, de Cormac McCarthy, Editora Companhia das Letras, tradução de José Antonio Arantes, 414 páginas, R$ 29,00.

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