O destino é o terreno baldio da memória
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de maio de 1999
ReproduçãoMarcos Losnak Especial para a Folha2 
Raspando os ossos da existência podemos encontrar algumas pepitas de dores e algumas pepitas de alegrias. Todas podem possuir o mesmo quilate, independente do brilho aparente aos olhos. O sentido que as torna preciosas não reside no brilho propriamente dito, em sua pretensa aparência, mas no sentimento experimentado pelos olhos que as acariciam de maneira reflexiva.
Em algumas estradas, a paisagem faz questão de afirmar que a memória das dores é mais persistente que a memória das alegrias. Em outras, a paisagem apresenta um quadro bem diferente: deixa claro que a memória da alegria é de uma espécie superior à da dor. Nos dois casos a paisagem pode ser apreciada, e sentida, como duas faces de uma moeda sem face, a vida.
Podemos nos deparar com questões diversas como: por que uma mulher, após passar pelas aterradoras dores do parto, decide de maneira clara ter outro filho e outro parto, outro filho e outro parto e mais um filho e mais um parto? Ou: por que um menino que se diverte subindo em árvores ao cair e quebrar um braço, logo após a recuperação deseja novamente subir em árvores? O contrário dessas questões também é verdadeiro: por que uma mulher após um parto decide nunca mais ter filhos e um menino de braço quebrado decide nunca mais subir numa árvore?
Na realidade, não há respostas saciáveis, há apenas a vida e a solidão como eficiente método reflexivo onde algum tipo de luz pode ser vislumbrado. Esse método reflexivo solitário, com alto grau de sutileza e acompanhado de boa literatura, está em Montanha Gelada, romance do norte-americano Charles Frazier lançado pela editora Companhia das Letras. A dedução que ele oferece, aquela que também está presente de maneira opaca no cotidiano de qualquer ser vivo, é de que a vida é sempre maior do que qualquer questionamento sobre ela.
Trata-se de um romance que, ao narrar uma história, leva o leitor ao centro de uma viagem poética. A trajetória de uma existência consciente de sua própria vulnerabilidade, acompanhada pela força de sobrevivência interior, fazem da narrativa de Charles Frazier um oásis dentro da abundância de romances na literatura americana recente. Sua literatura está próxima à de Jim Harrison e, principalmente, Cormac McCarthy.
Nascido em 1950, Charles Frazier não é o que pode se chamar de escritor profissional. Professor de língua inglesa durante duas décadas em universidades da Carolina do Norte e Colorado, abandonou a carreira acadêmica para se dedicar à literatura. Aos 47 anos de idade publicou seu primeiro e único romance, Montanha Gelada, que acabou vendendo mais de um milhão e meio de exemplares, além de receber prêmio National Book Award de 1997. Após o inesperado sucesso, refugiou-se numa fazenda em sua região de origem para se dedicar à criação de cavalos.
Montanha Gelada, ambientado durante a Guerra Civil americana, narra a trajetória de Inman, jovem soldado confederado que, ao ver os horrores da guerra e ser ferido na frente de batalha, resolve desertar. Foge do hospital em que está internado e empreende uma viagem de volta, a pé, à sua região natal, o extremo oeste da Carolina do Norte aos pés da Montanha Gelada. Seu objetivo é reencontrar a jovem Ada e declarar seu amor. Sendo um foragido, Inman passa por todo tipo de problemas, dificuldades e pessoas. Essa caminhada solitária pelos campos se transforma em uma viagem interior.
De maneira paralela, Montanha Gelada narra a trajetória de Ada, filha de um pastor e educada para as artes. Com a morte do pai, e sem saber fritar um ovo, passa a lutar pela sobrevivência entre erros e acertos. Para isso passa a contar a ajuda de Ruby, uma pobre garota abandonada que aprendeu a sobreviver na porrada.
Charles Frazier narra a desesperada busca pela sobrevivência de Inman e Ada, exteriormente e interiormente, até o encontro dos dois. Sem final feliz. Apresenta as dores da guerra do ponto de vista de um desertor, não de um soldado.
Montanha Gelada é uma paisagem de pepitas de dor e alegria. Cinco de dor para cada uma de alegria. Demonstra que o destino é um terreno baldio da memória. Literatura.
Montanha Gelada de Charles Frazier, Editora Companhia das Letras, tradução de Beth Vieira, 430 páginas, R$ 29,00.


