O DESTERRO NA ILHA DO DESALENTO
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Gatos não lêem jornal, mas gostam de dormir sobre eles. Folhas reunidas num canto tornam-se cama, calor, abrigo. Velhas folhas podem ser usadas como ninho para fêmeas parirem seus filhotes. Neste caso, as palavras impressas ficam manchadas de sangue e placenta. Apesar de arranhados, os textos preservam algum sentido.
Aos olhos dos animais, fonte de calor, abrigo. Aos olhos dos homens, velhas notícias, algumas frases sobre os romances de João Gilberto Noll: Seus personagens vagam sem origem, sem destino, sem sentido. Não possuem passado memorável, nem futuro importante. Estão sempre fugindo de alguma coisa para chegar a lugar nenhum - o destino é o presente. Em suas obras não existe felicidade, nem humor radiante. Não existe futuro, seja ele melhor ou pior. Não há nenhum tipo de otimismo de plantão. Não existem enfeites mentais para conferir sentido ao que não possui sentido. Como escritor, não pinta a vida com hidrocor de última geração. Não corre contra os acontecimentos psíquicos. Não escolhe uma moral escrita em letras douradas. Suas narrativas rejeitam a noção cronológica dos fatos e acontecimentos. Tudo acontece no interior de uma névoa poética. Nem todas as causas possuem um efeito e, do mesmo modo, nem todos os efeitos decorrem de uma causa. Enfim, não mata a sede em garrafas de água mineral, sacia a sede em poças de água de chuva.
Encontrado num antigo jornal utilizado como ninho de gato, o texto acima ainda permanece coerente, após alguns anos, para definir a obra de João Gilberto Noll. Seu mais novo romance, Canoas e Marolas, é um claro exemplo de seu estilo literário - povoado pelo mesmo universo de suas obras anteriores, desde A Fúria do Corpo (1981), primeiro romance, à A Céu Aberto (1996), o penúltimo.
Canoas e Marolas é o quinto volume da coleção Plenos Pecados da Editora Objetiva enfocando os sete pecados capitais. Embora escrito sob encomenda sobre um tema específico, a preguiça, João Gilberto Noll não levou ao pé da letra o pecado abordado. Não saiu de sua estrada literária para escrevê-lo, manteve-se fiel a sua visão e estilo. O texto pode ser considerado como mais um coerente capítulo de sua obra.
O enredo do livro é um detalhe dentro da narrativa: um homem chega numa ilha em busca de uma filha desconhecida. Estabelece contato com um garoto de rua, encontra a filha grávida, é internado em um hospital onde é preparado para a morte. Abandona a ilha e segue caminho sem destino. Sua entrega à imobilidade culmina em sua transformação em pedra. Um homem que não tem certeza que possui uma filha, não sabe se realmente a encontrou, nem pode afirmar com exatidão se conheceu algum garoto. A existência é uma ilusão a que apenas a fé confere sentido.
Canoas e Marolas coloca o leitor em um território nebuloso, na mente do narrador, onde não há nenhuma obrigação para com a lógica. Parece dizer que existem várias maneiras de sentir, da mesma maneira como há várias maneiras de descrever esse sentir. Em alguns casos, a maneira como se descreve o sentir é maior do que aquilo que se sente. Em outros casos, o que se sente é maior do que a maneira que é descrito o sentir. Na literatura de João Gilberto Noll, os dois casos se encontram para converter a materialidade em pigmentos voláteis. O destino nunca é o ponto final, mas a travessia.
Em Canoas e Marolas, o escritor gaúcho converte o tema preguiça num elemento altamente subjetivo - e até mesmo incorporado pela linguagem. Sugere, de maneira gasosa, a existência de dois pólos de preguiça, a física e a mental. Geralmente atrelada à condição puramente física, quando a indolência ocupa o pensamento é possível ocorrer uma espécie de iluminação rumo ao não pensar. Um ponto onde a vontade se extingue, onde os desejos se evaporam.
João Gilberto Noll definiu certa vez sua literatura como um território nebuloso, onírico: Minha literatura, como os sonhos, tem uma atmosfera nebulosa, em que os eixos de causa e efeito estão meios borrados, ou pelo menos não são perceptíveis. Tenho a impressão de que uma das funções da literatura, assim como de qualquer arte, é desautomatizar as consciências, em geral muito viciadas, muito acostumadas às relações explícitas e mecânicas. E esse processo é quase o processo da vacina.
E é exatamente nesse contexto que Canoas e Marolas está inserido. E o leitor não deve ter preguiça para penetrá-lo. Assim como os gatos não pensam duas vezes em procurar um velho jornal para dormir.
Canoas e Marolas de João Gilberto Noll - Preguiça, 5º volume da coleção Plenos Pecados, Editora Objetiva, 108 páginas, R$ 15,00.





