Carlos Eduardo
Lourenço Jorge
Especial para a Folha 2

  É parte da estratégia dos distribuidores. Enquanto preparam estréias ambiciosas, ostentando a grife ‘‘nominados ao Oscar’’, seguram um pouco mais os títulos e despejam no mercado material sem grande valia, filmes importados por lote e que é preciso veicular, nem que seja por pouco tempo, numa operação tapa-buraco que o exibidor compulsoriamente conhece muito bem e que o espectador só tem a lamentar. Este final de semana, por exemplo. Não fosse pela inesperada chegada de um filme latino-americano encharcado de humanidade, puro deleite para quem se importa com a vida, e o período estaria perdido - isto no caso de todos os bons filmes ainda em exibição já terem sido vistos. Como complemento da nova programação, há um fraquíssimo lançamento nacional na exaurida vertente ‘‘pura adrenalina’’ e duas comédias muito irregulares, com a mulher como centro das atenções dos respectivos argumentos. Para a próxima semana está prevista a entrada do mais recente e ótimo ‘‘Prenda-me se For Capaz’’, correndo atrás das estatuetas de melhor ator coadjuvante (Christopher Walken) e melhor trilha sonora.
Uma comédia genial
  Filmes são como casas. Ou se tem boas fundações e se alicerça com sólido concreto, ou tudo não vai passar de uma bela mas oca e frágil fachada. Nos bons filmes, por trás das câmeras, há sempre um trabalho aplicado, silencioso, metódico, paciente e, claro, talentoso, que acaba se traduzindo no prazer em forma de imagens que o espectador desfruta. É este trabalho que afinal dá forma aos filmes que ficam na memória e no coração do publico. Foi este trabalho, sem nenhuma dúvida, que resultou em ‘‘O Filho da Noiva’’, comédia dramática que representou a Argentina ano passado na corrida ao Oscar e que chega hoje à Londrina apenas em pré-estréia (veja a programação de cinema na página 2) depois de já exibido na principais capitais brasileiras.
  Dirigido por Juan Carlos Campanella, ‘‘El Hijo de La Novia’’ é uma história plena de humanidade, astuciosamente contada entre risos e lágrimas. No essencial da trama, o quarentão Rafael Belvedere (Ricardo Darin) não gosta da vida que leva. Está desconectado com tudo que o cerca. Sem ideais, vive no restaurante que um dia foi do pai, Nino (Hector Altério). Mal divorciado, nem consegue tempo para ver a filha Vicky (Gimena Nóbile) crescer. Tem uma noiva, também mal resolvida. E há a mãe, Norma (Norma Aleandro), internada com Alzheimer avançado numa casa para idosos. Rafael só quer ter paz na vida, mas obviamente não consegue. A possível venda do restaurante e um ataque cardíaco são fatores que fazem o personagem revisar o passado para tentar consertar o presente, inclusive cumprindo o grande desejo da mãe: o casamento na igreja.
  Temperado com humor de excelente qualidade, este drama afetuoso e sensível tem no roteiro preciso e no trio central de intérpretes seus maiores trunfos. Outro grande momento do cinema argentino que, apesar de todas as recentes adversidades, nos últimos tempos vem construindo uma notável filmografia, por ora a mais importante do cone sul - Brasil incluído.

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