O despertar de um homem e sua nação
Paulo Polzonoff Jr.
De Curitiba
Especial para a Folha2
Em 1947 o Império Britânico dominava o que é hoje Israel. Era uma época conturbada. O mundo acabara de sair da II Grande Guerra e via com certo remorso a luta desesperada dos judeus sobreviventes dos campos de concentração por um Estado Judeu. Não bastasse todo o flagelo de Auschwitz, ainda tinham de lutar por um pedaço de chão que, biblicamente, lhes pertencia, como também pertencia aos cristãos e árabes. Era um mundo que, tudo indicava, despertava de um pesadelo para cair em outro.
Neste contexto é que Amós Oz narra o belíssimo Pantera no Porão (Cia. das Letras, R$ 18,50), que conta a história de Prófi, um menino às portas da adolescência, que é acusado de traição por seus amigos devido a uma amizade questionável com um sargento da polícia britânica, Dunlop, do qual ele só se aproxima na intenção de conseguir informações militares privilegiadas para sua Organização Secreta, a LOM (Liberdade ou Morte). O título do livro se refere a um filme imaginário, Panther in the basement, citado pelo narrador, que utiliza a imagem da pantera no porão como símbolo de uma força contida prestes a explodir, seja ela resistência armada israelense ou a sexualidade adolescente.
Amós Oz usa o tema da traição/lealdade para explorar toda a influência da História na formação do caráter dos indivíduos. Para tanto, usa o fato de Prófi ser um pré-adolescente, atormentado por questões de futuro num país de norte incerto. Como um amante das palavras, Oz explora o sentido da palavra traição, dando-lhe, no decorrer do livro, um caráter volátil, cada vez mais abstrato. Amós Oz pergunta-se à exaustão até que ponto podem as questões públicas determinar as questões da vida privada. E, num âmbito mais específico, quem, afinal, é suficientemente poderoso e sábio para apontar inimigos, traidores, hereges?
Não é, porém, somente às questões geopolíticas que se atém o escritor israelense. Prófi é, antes de mais nada, um garoto de doze anos, para o qual os desejos despontam, não sem uma ponta de desconfiança quanto a sua legitimidade. Quando Prófi vê a irmã de Ben-Hur, um dos seus companheiros da LOM, tirando a roupa, sente-se muito mais traidor e desleal do que no episódio de Dunlop, pois pensa ter traído todos os seus princípios de amor casto. Fica a dúvida sobre o que é mais relevante, se a traição à pátria, à raça, ao credo ou a traição do indivíduo a si próprio.
Narrado pelo protagonista já adulto, Pantera no Porão é quase um relato autobiográfico. Talvez isto explique o tom de melancolia e nostalgia fria que pontua toda a história, apesar de sua linguagem leve e surpreendentemente bem-humorada. Ao contrário dos outros romances de Oz, marcados por uma tempestade de elucubrações políticas e morais, este Pantera no Porão é como uma chuva fina e insistente, daquelas que molham sem que se perceba.
Amós Oz é dez anos mais velho do que seu próprio país. Portanto, é normal que o vislumbre com um olhar de pai ou, por outra, de irmão mais velho. Israel, portanto, será um menininho assustado com sua própria potência, espremido entre o Mediterrâneo e o deserto, enclausurado em um porão cheio de crenças, cores, idiomas, sons e cheiros, um país sem outra identidade que não o sentimento de hostilidade generalizada, comum a judeus e árabes. Uma fera, enfim, contida a duras penas por uma porta frágil, cada vez mais frágil, chamada tolerância.





