Único diretor brasileiro de cinema que é reconhecido na rua por qualquer pessoa (algo que nem nomes importantes como Cacá Diegues ou Nelson Pereira dos Santos conseguiram), José Mojica Marins tem reconhecida também sua obra, que entre os títulos mais conhecidos estão os filmes estrelado pelo personagem Zé do Caixão.
''Encarnação do Demônio'', seu novo filme, que encerra a trilogia sobre o personagem, foi agraciado com sete prêmios no Festival de Paulínia, além de dois no Festival do Paraná, realizado neste mês. O longa foi concretizado após três tentativas nas últimas décadas, que foram abortadas devido à morte repentina dos produtores, o que lhe custou a fama de ''filme maldito''.
Com uma produção invejável, apesar do baixo orçamento, o filme conta com efeitos especiais à moda antiga e animais reais em cena (aranhas, ratos, baratas e cobras). Na trama, Zé do Caixão está mais violento, sádico e obsessivo do que nunca, saindo em busca da mulher superior que gere um filho perfeito e perpetue seu sangue.
''Encarnação do Demônio'' era considerada uma fita maldita. O produtor Paulo Sacramento não teve medo de levar o projeto adiante?
Não. Ele dizia ''por que eu vou ter medo de morrer se eu estou fazendo algo legal?''. O Paulo me procurou em 2000 querendo filmar ''Encarnação''. Eu já estava tão desiludido com essa fita, pois tentei fazer três vezes, mas o produtor morria antes de começar. Mas o meu filho me encorajou dizendo que eu não tinha nada a perder. O Paulo tinha uns 26, 27 anos e era meu fã. Topei e assinei contrato com ele, mas antes perguntei se ele tinha sócio na produtora ou esposa. Ele tinha os dois, então eu me animei, pois aí tinha gente pra prosseguir caso ele morresse.
Os insetos e animais em cena são de verdade. Já aconteceu dos gringos virem o filme e acharem que era computação gráfica?
Sim, eles acharam que era computação. Quando falei que eram baratas e aranhas reais, eles ficaram impressionados. Isso já tinha acontecido quando meus filmes antigos foram exibidos no exterior.
Como foi a escolha do elenco?
Eu analisava visual, currículo e atuação. Para cada papel havia uns seis candidatos. Tem um paranaense, o Luis Mello. Eu achei o tipo muito forte para o papel que ele ia fazer, e deu conta. É um plano sequência no início da fita, que não é qualquer um que faz.
Este filme tem um desdobramento no quadrinhos, no álbum ''Prontuário 666''. Vão haver mais desdobramentos?
Era pra sair um CD, mas não deu por causa da correria do lançamento do filme. ''Prontuário 666'' mostra os 30 anos que Zé do Caixão passou na cadeia. No ano que vem vamos lançar um novo quadrinho mostrando os 10 anos anteriores, no manicômio.
Há projetos de filmes novos?
Estou trabalhando com o Dennison Ramalho no roteiro de ''O Devorador de Olhos'', que é um projeto de 30 anos atrás que está sendo adaptado para a época atual.
Além do cinema, há planos em outras áreas?
No ano que vem vou montar o Museu Zé do Caixão, com projeção 24 horas de tudo o que eu filmei. Tem também a televisão. Uma rede me procurou para fazer uma série.
''Encarnação do Demônio'' tem censura 18 anos. Este é um obstáculo para o filme?
Sim. Filmes como ''O Albergue'', que é bem forte, e ''Jogos Mortais'' tiveram censura 14 anos. ''Encarnação'' levou censura 18 anos. Parte do meu público é formado por uma garotada entre 10 e 17 anos, que são meus fãs desde o Cine Trash. Eles não podem ver e estão revoltados com isso. Queira ou não, é uma censura contra mim. A gente entrou com três recursos e não conseguimos baixar nem para 16 anos. Estamos perdendo muita bilheteria por causa disso.

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