O despertar da escrita invisível
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Um escritor segue de trem para uma palestra. Durante a viagem, divaga sobre um tema que o persegue: o desaparecimento do sujeito na literatura moderna. Num estalo, resolve ele próprio desaparecer do mundo, tornar-se autor invisível. Aproveitando uma situação absurda, quando desce do trem, entra de cabeça na aventura, ou no delírio, de fugir daquilo que é e refugiar-se do mundo no interior da escrita privada.
Essa pode ser a descrição básica do enredo de ''Doutor Pasvento'', novo romance do escritor espanhol Enrique Vila-Matas que a editora Cosac Naify coloca nas livrarias na próxima semana. Tudo o resto é uma ótima aula de literatura pontuada pela melancolia e humor.
Enrique Vila-Matas, um dos escritores de destaque da literatura europeia da atualidade, é considerado uma espécie de ''escritor de escritores''. Isso porque a matéria prima de sua literatura é a própria literatura. Quem tiver a oportunidade de ler qualquer um de seus outros romances publicados no Brasil (''Bartleby e Companhia'', ''O Mal de Montano'', ''Paris Não Tem Fim'', ''Suicídios Exemplares'' e ''A Viagem Vertical'') constatará que uma de suas principais características narrativas é construir um jeito novo e extremamente inteligente de abordar a escrita. O argumento é simples: após múltiplas direções, só restou para a literatura caminhar em sua própria direção.
''Doutor Pasavento'' não foge a essa regra. Na verdade, reforça-a. O personagem central, um escritor chamado Pasavento, decide tornar-se nada, desaparecer no espaço. Para isso assume sucessivas identidades, torna-se personagem da própria ficção. Seu sonho é seguir o caminho de um Thomas Pynchon ou do finado J. D. Salinger, onde o isolamento e a invisibilidade se convertem em um dos componentes principais da arte de escrever.
Mas, no fundo, Pasavento deseja que as pessoas percebam seu desaparecimento e o procurem. Espera que sintam sua falta e promovam uma verdadeira caçada à sua procura. A ironia reside no fato de que ninguém sente sua falta. Ninguém percebe que ele desapareceu. Então ele dá mais um passo em direção ao abismo: além do desaparecimento de sua pessoa, de seu eu, promove o desaparecimento de sua literatura.
Nesse processo, elege o escritor suíço Robert Walser (1878 - 1956) como parâmetro moral. Walser possui uma história ímpar. Após sofrer um colapso nervoso, se abrigou num manicômio onde viveu durante década até falecer congelado. Nunca parou de escrever, mas adotou a posição de escrever apenas para si mesmo. Criou uma montanha de manuscritos com uma caligrafia quase microscópica. Criou a literatura de um homem só.
O objetivo de Pasavento é semelhante: negar a literatura como arte social, como forma de poder ou como combustível da vaidade. Uma espécie de ''escritor sem motivo'' trabalhando numa literatura radicalmente privada. Passa então criar para si uma nova biografia, um novo passado, novas identidades, sem a utilização da escrita. Começa a aplicar a ficção em suas relações com o cotidiano, com as pessoas e com o mundo do qual deseja ausentar-se.
Como outros romances de Vila-Matas, ''Doutor Pasavento'' é povoado por montanhas de citações. Todas bem encaixadas em seus contextos compondo uma narrativa que elimina as fronteiras de gêneros como a ficção, o ensaio, a biografia, a autobiografia, o romance e a crítica literária.
Para aqueles que nutrem algum tipo de paixão pela literatura, a obra de Enrique Vila-Matas é um prato cheio até a tampa. Mesmo quando deixa claro que é sempre preciso duvidar das palavras. Sejam elas doces, amargas, alvas ou escuras.
SERVIÇO
Autor - Henrique Vila-Matas
Editora - Cosac Naify
Tradução - José Geraldo Couto
Quanto - 55 (412 págs)
Na antiguidade, a viagem, para dar um exemplo quase evidente, era a trama ideal, porque descobriram que, se havia uma coisa que tinha um começo e um fim, essa coisa era a viagem. Não se sabia então ainda o que era contar uma história, mas se sabia perfeitamente o que era uma viagem. As viagens tinham um começo e um fim. Isso punha uma ordem nas coisas se a gente quisesse contar uma história e demarcá-la de forma que começasse e terminasse. Certamente por isso a ''Odisséia'', com seu relato de viagem, é uma das primeiras histórias que se contaram. Hoje sabemos que qualquer pessoa que viaja pode repetir a experiência de Ulisses, a menos que decida nunca voltar para casa. No momento do avião decolar, sempre se põe em marcha uma história que terá um fim com a volta para casa. Mas cabe perguntar, em que momento realmente começou essa história? Foi ao despachar a bagagem ou quando paramos um taxi para ir ao aeroporto, ou quando a aeromoça sorriu ao nos dar os jornais, ou quando, dez anos antes, começamos a sonhar com a viagem, ou ainda quando dormimos durante o voo e sonhamos que não voávamos?
(Fragmento de Doutor Pasavento de Henrique Vila-Matas)


