Quem imaginaria que uma banana intacta, quase passada, sobre um fundo branco se tornaria um clássico da pop art? Concebida por Andy Warhol para ilustrar a capa do álbum ''Velvet Underground and Nico'', em 1967, ela foi lembrada mais uma vez como exemplo máximo de design moderno numa pesquisa elaborada por dezenas de jornalistas, publicitários, artistas gráficos, músicos e colecionadores de todo o País.
O resultado pode ser conferido na edição especial da revista Bizz, que está de volta às bancas após um sumiço de quase quatro anos. Na nova versão, a publicação deixa de apresentar matérias, entrevistas e resenhas como ficou conhecida nos anos 80 para dar lugar a números temáticos. A reestréia destaca as 100 maiores capas de discos de todos os tempos.
Encabeçada pela capa da banana, a lista traz em segundo lugar a arte do álbum ''London Calling'', lançado em 1979 pelo The Clash. A foto de Ivan Klingen, com direção de arte de Ney Tavora, garantiu o terceiro posto para o álbum ''Verde Que Te Quero Rosa'' (1977), de Cartola. Em quarta colocação aparece a memorável apresentação visual do álbum de estréia homônino lançado pelos Secos & Molhados, em 1973.
Não menos famosa, a reunião de celebridades convocada pelos criadores Peter Blake e Jann Haworth para posar para a embalagem do álbum ''Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band'', dos Beatles, desponta aqui em quinto lugar. O ranking dos dez mais destaca ainda ''Nevermind'' (1991) do Nirvana; ''Never Mind The Bollocks Here's The Sex Pistols'' (1977) dos Sex Pistols; ''Abbey Road'' (1969) dos Beatles; ''Elvis Presley'' (1956) de Elvis Presley; e ''Ramones'' (1976) dos Ramones.
No texto de apresentação, os editores assinalam: ''Lista é aquela coisa sempre vai ter gente sentindo falta de fulano ou inconformada com o beltrano que apareceu na frente do sicrano. Mas (sem querer fazer pouco de toda a trabalheira que deu para chegarmos a ela), cá entre nós, tudo isso não passa de desculpa para a gente contar 100 histórias fabulosas que se escondem por trás dessas obras de arte que estocamos no porta-luvas do carro''.
É aí que a revista torna-se item obrigatório de colecionador, já que listas semelhantes proliferam periodicamente, especialmente no exterior. No Brasil, contam-se nos dedos de uma mão as matérias publicadas em jornais e revistas que procuraram escavar informações adicionais para valorizar as capas de discos como laboratórios de experimentação gráfica.
Os editores da Bizz capricharam. Todos as 100 obras selecionadas são acompanhadas de textos informativos. Sobre o material utilizado para compor o visual do disco campeão do Velvet, por exemplo, os leitores ficam sabendo que a gravadora Verve apropriou-se de uma imagem desautorizada e acabou processada pelo fotógrafo Eric Emerson.
A contracapa traz os Velvets tocando na frente de um ''still'' do filme de Warhol, ''The Chelsea Girls''. O ''still'' mostra Lou Reed clicado por Eric, que entrou na Justiça por estar precisando de dinheiro para pagar a fiança e sair da cadeia (!). A gravadora do The Clash, por sua vez, não teve nenhum problema com a autora da imagem antológica que estampa a capa de ''London Calling''.
A foto de Paul Simonon espatifando seu contrabaixo contra o chão foi registrada durante um show no Palladium Theater, em Nova York, no dia 21 de setembro de 1979. Ela percebera a crescente a irritação do músico com o ''retorno'' do som do instrumento e resolveu acompanhar seus movimentos no palco. Depois do flagrante, confiante de que conseguira uma boa foto, ela revelou o filme e ficou desapontada com a resolução da imagem, que saíra desfocada.
Joe Strummer, porém, não só aprovou o trabalho como afirmou categoricamente que aquela seria a capa do disco. Posteriormente, no departamento de arte da gravadora CBS, em Londres, o designer Ray Lowry deu um acabamento final plagiando a tipografia em verde e rosa e a mesma disposição do disco de estréia de Elvis Presley (que aparece em nono lugar na lista) com a justificativa de que ''London Calling'' tornava o rock novamente perigoso, como ele havia sido em meados dos anos 50.
Stummer e Mick Jones, os líderes da banda, ganharam espaço somente na contracapa, mas não reclamaram. Quem sempre se lamentava ao ver a arte gráfica do disco era o próprio Paul Simonon. ''Devia ter usado um baixo reserva. O que destruí era muito bom!'' dizia. Histórias saborosas como essa acompanham os demais títulos reunidos na revista, que inclui ainda textos sobre artistas gráficos em cujos portfólios sobressaem trabalhos criados em associação com a música.
Aqui, os leitores terão o prazer de conhecer figuras como Alex Steinweiss (o primeiro diretor de arte de uma companhia de discos), Elifas Andreato (paranaense consagrado como autor de capas de artistas de MPB nos anos 70 e 80), Reid Miles (capista do selo norte-americano de jazz Blue Note), César Villela (desenhista dos álbuns da Bossa Nova) e Storm Thorgerson (criador das capas dos álbuns do Pink Floyd).
Um outro bloco de textos compila capas por categorias, como ''psicodelismo'' (aquelas com a estética viajandona de cores estouradas ou derretidas), ''heavy metal'' (layout típico com desenhos de caveiras, bruxas, espíritos malignos etc), ''progressivo'' (identidade visual à base de paisagens oníricas), ''discos-objeto'' (suportes inusitados), ''box-sets'' (caixas), ''os incompreendidos'' (com imagens ridículas) e ''as proibidonas'' (que foram censuradas).
A nova Bizz, editada por Ricardo Alexandre, traz tanta informação que só lhe faltou lombada para virar livro. A próxima edição temática sai em junho com o primeiro de cinco números sobre a história do rock.
Serviço:

- Revista Bizz especial ''100 Maiores Capas de Discos de Todos os Tempos''. Editora Abril. Preço: R$ 14,95.

mockup