Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para Folha2
ReproduçãoExemplo de escorço: desenho que representa objeto de três dimensões em forma reduzida ou encurtadaAmanhã é dia de prévia na Universidade Estadual de Londrina. Mais de mil candidatos estarão disputando a primeira fase do vestibular para uma vaga em Arquitetura, Desenho Industrial, Estilismo e Moda e Educação Artística.
Estudantes em sua maioria saídos da adolescência estarão decidindo seu futuro, muitos sem a certeza de sua real vocação. Até porque o ensino do desenho, da criatividade e da leitura de imagens no País, sempre foi marginalizado nas instituições acadêmicas. Em Londrina, por exemplo, apenas um ou outro colégio prepara seus alunos para as provas de linguagem visual.
Considerado supérfluo - isto é, que não cai no vestibular - as verbas para o ensino do desenho são sempre as menores, mas se há cortes no orçamento é a primeira matéria a ser sacrificada em função das outras. O nível é tão baixo, que a maioria dos estudantes - aí incluídos desde os alunos da pré-escola até a universidade - é incapaz de decifrar os códigos de uma informação visual contidos numa campanha publicitária, foto jornalística ou reconhecer o período de criação de uma obra de arte. Não sabem representar uma idéia visual e nem mesmo o que é um escorço.
O problema não é só com os que prestarão exames nas áreas que trabalham com a percepção visual e que precisam saber sobre essas questões. Esse alfabeto deveria ser ensinado a todos os alunos a partir do momento em que entram na escola. Não há nenhuma razão para que o indivíduo que deseja ingressar na faculdade saiba matemática, português, química e desconheça completamente o desenho e o uso da cor. Que seja um analfabeto das formas plásticas e gráficas. Principalmente hoje, dominados que estamos pelo mundo das imagens.
Essa idéia de que é preciso ter talento, dom, vocação para o domínio das formas é puro preconceito, preguiça e descaso contra um estudo que possui métodos científicos e mensuráveis para seu aprendizado e desenvolvimento. Assim como se aprende a ler e escrever, se aprende a representar e reconhecer um corpo no espaço. A academia não forma artistas, mas é possível ensinar técnicas em qualquer campo do conhecimento humano. Não se pede a um médico que saiba como criar uma Monalisa, nem a um artista que opere alguém com cancêr, mas o cirurgião alfabetizado visualmente, usará muito melhor sua percepção na hora de extirpar um tumor.
Amanhã é dia de mais uma prévia que eliminará ou alimentará o sonho de cada um desses estudantes, que agora disputam sua chance de prestarem o vestibular de janeiro. Boa sorte a todos.
Em tempo: Escorço, segundo uma das definições do Aurélio, é desenho ou pintura que representa objeto de três dimensões em forma reduzida ou encurtada, segundo as regras da perspectiva.

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