O desenho como categoria autônoma
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de maio de 2000
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
A idéia de que arte é representação e que o bom artista é aquele que sabe copiar bem aquilo que vê e de que a beleza é o que já conseguimos, de algum modo, reconhecer, está de tal modo impregnada em nossa subjetividade que não nos damos conta mais de que esta leitura, feita sobre o que é ou não arte, está ligada a uma idealização platônica, reforçada no Renascimento, quando havia a obrigação de se dar um sentido às artes plásticas. Pensar do mesmo modo hoje em dia é aceitar a idéia de uma arte aplicada, como se criação fosse simplesmente um jogo de formas e, no fundo, não haveria tanta diferença entre a sensibilidade artística e o design, a cenografia, o desenho de moda ou a publicidade.
Essa questão da autonomia da arte em relação às outras disciplinas já vem sendo discutida desde o pós-impressionismo, na medida em que as cores passaram a exprimir sentimentos e sensações ao invés da aparência das coisas. Aliás, assim como foi preciso um Mondrian, um Albers e um Malevitch por exemplo, para demonstrar de vez que a pintura possui suas próprias regras independentes da escultura, essa mesma autonomia vem sendo reclamada pelo desenho em relação à pintura desde então.
Mas seria o desenho uma categoria independente da pintura? Sua função não seria a de representar objetos no espaço mesmo quando não fosse projeto de escultura ou arquitetura? Se tomarmos com exemplo a obra de um artista que trabalhou tanto com escultura, pintura, instalação e performances como o alemão Joseph Beuys, reconheceremos que a única coisa em comum entre as diversas categorias de arte que praticava era a maneira expressiva com que colocava seu discurso plástico. Seu trabalho, realizado em várias meios, mantém a unidade de sua poética em qualquer situação, mas oferece autonomia a todas elas. Não querem dizer nada além do que ali está expresso. Não é à toa que as próprias lousas - quadros-negros onde expunha suas idéias plásticas em palestras para artistas e estudantes - tenham se tornado obras de arte.
Uma outra artista, Helena Almeida, portuguesa, usa o desenho para criar um espaço cujo campo exploratório é designado pela linha, pelo risco e pela mancha sobretudo para falar das fronteiras movediças onde os corpos se instalam. Em uma de suas séries, intitulada Desenho Habitado, de 1974 é a linha sobreposta que brinca com a fotografia, dando sentido à composição. Linhas e manchas que dialogam com a superfície do papel sensibilizado, sem nenhuma relação de dependência com ele.
Melhor exemplo, para falar da autonomia do desenho, talvez seja observando a obra de Mira Schendel, nascida na Suíça em 1919, mas brasileira desde 1949, quando desembarcou no Rio de Janeiro. Nela, não só o suporte, mas também o espaço se rende aos delicados rabiscos, traços, linhas, sinais gráficos e letras decalcáveis que formam seus desenhos, seja sobre papel de linho, onde são impressas marcas que podem ser vistas dos dois lados, ou em chapas acrílicas formando vários planos de observação. Sua influência é enorme junto aos jovens artistas que aprenderam que o desenho é sobretudo atitude.
A forma, em si, é o que menos conta.
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