O desencontro do encontro
Marcos Losnak
Especial para a Folha 2
O Brasil está comemorando seus 500 anos de várias maneiras. Alguns soltam rojões, outros compram generosamente artesanato de índios que batem de porta em porta, outros ainda organizam grandes festas verde-amarelas. Uns comemoram acendendo centenas de velas, outros humilhando milhares de velhos. Há também aqueles que se dedicam em revelar fatos omitidos pela História, como também há aqueles que procuram refletir sobre processo de formação daquilo que chamamos Brasil.
Entre as dezenas de eventos que comemoram os 500 anos do descobrimento (ou invasão) destaca-se o ciclo de conferências Brasil 500 Anos Experiência e Destino organizado pela Divisão de Estudos e Pesquisa da Funarte. O projeto deve estender por alguns anos. Prevê quatro ciclos de conferências com pesquisadores de áreas abrangentes em várias cidades do país. Os dois primeiros ciclos já foram realizados.
O resultado do primeiro ciclo, dedicado ao que aconteceu na Europa de 1500 antes da descoberta das Américas, foi publicado no ano passado no livro A Descoberta do Homem e do Mundo (Editora Companhia das Letras) organizado por Adalto Novaes. O resultado do segundo ciclo, ocorrido no primeiro semestre deste ano e dedicado às sociedades indígenas acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras.
Organizado por Adalto Novaes, a obra aborda vários aspectos do universo indígena divididos em cinco temas centrais: a idéia do encontro/desencontro com a abertura dos nativos ao outro, no caso os europeus; a questão de como viver em sociedade dentro da cultura indígena, ou seja, o poder político do índio; o questionamento da superioridade da razão ocidental tendo como argumento a metafísica dos povos indígenas; a discussão sobre as influências que o Novo Mundo exerceu no pensamento político europeu; a situação atual das sociedades indígenas.
A Outra Margem do Ocidente reúne 28 textos/conferências de pesquisadores, historiadores e antropólogos. Entre eles estão Marilena Chauí, Philippe Descola, Sérgio Paulo Rouanet, Frank Lestringant, Olgária Mattos, Márcio Souza, Patrick Menget, Carlos Fausto, Peter Gow, Sérgio Cardoso, etc.
Apesar dos intelectuais de peso, brasileiros e estrangeiros, presentes em A Outra Margem do Ocidente os dois textos que se destacam no livro são assinados por indígenas, Davi Kopenawa Yanomami (xamã e líder yanomami) e Ailton Krenak (militante dos direitos dos índios). O mérito de ambos, embora articulados, está em apresentar uma visão emocional e não racional dos povos indígenas.
Davi Kopenawa lembra de um dos mitos yanomami, o deus Omama. Omama criou os índios e brancos mas, temendo a falta de sabedoria dos brancos, expulsou-os da América dando-lhes uma terra longe, além do mar. Desta maneira os índios estariam protegidos. Mas os brancos sempre lembravam da terra distante onde nasceram e um dia acabaram voltando e foram recebidos como parentes (um mito equivalente foi coletado por Lévi-Strauss). O argumento é que os nativos brasileiros acolheram os brancos em seu território porque os consideravam como irmãos. E os brancos destruíram os nativos porque não os consideravam como irmãos.
A Outra Margem do Ocidente, organização de Adauto Novaes, Minc-Funarte/Editora Companhia das Letras, textos de Adauto Novaes, Davi Kopenawa Yanomami, Ailton Krenak, Frank Lestringant, Carlos Frederico Marés, Jacques Meunier, Márcio Sauza, Philippe Descola, Michael Heckenberger, Patrick Menget, Juan Carlos Estenssoro, Ronaldo Vainfas, Manuela Carneiro da Cunha, John Manuel Monteiro, Carlos Fausto, Serge Gruzinski, Peter Gow, Palcal Dibie, Leyla Perrone-Moisés, Carlos Alberto Ricardo, Sérgio Cardoso, Alcir Pécora, Sergio Paulo Rouanet, Olgária Matos, Marilena Chauí, Jean-Michel Rey e Miguel Abensour, 526 páginas, R$ 35,00.





