Não é todo dia que surge um romance capaz de contar uma história abrangente de maneira despretensiosa. Uma narrativa que abarque desde os fungos que habitam os porões dos sentimentos humanos até as relações sociais decorrentes de processos históricos.
‘‘Desonra’’, lançado pela Companhia das Letras, percorre esse caminho com uma linguagem clara e veloz. De autoria do escritor sul-africano J. M. Coetzee, o romance consegue trabalhar com as ínfimas moléculas do desejo e, ao mesmo tempo, com o contexto social de um país dividido entre a civilização e a barbárie.
De origens holandesa e inglesa, J. M. Coetzee nasceu na África do Sul em 1940. Professor de literatura na Universidade da Cidade do Cabo, entre os romances de sua autorias estão ‘‘No Coração do País’’, ‘‘Cenas de Uma Vida’’, ‘‘O Mestre de São Petersburgo’’ e ‘‘Terras de Sombras’’. Ao receber o ‘‘Book Prize’’ de 1999 com ‘‘Desonra’’, tornou-se o único escritor a ser agraciado duas vezes com o mais respeitado prêmio da Inglaterra.
Em ‘‘Desonra’’, Coetzee narra a história de David Lurie, um professor de literatura carregado de ironia. Com 52 anos de idade e dois divórcios, leva uma vida solitária. Pensa, todos os dias, em escrever uma ópera sobre o poeta Lord Byron mas nunca vai além das primeiras linhas.
Na sua idade, Lurie acredita ter solucionado um dos seus maiores problemas, os impulsos sexuais. Regularmente, uma vez por semana, visita uma jovem prostituta que lhe acolhe como amante. Durante uma hora e meia, paga por um pequeno paraíso dentro de seu árido cotidiano.
O paraíso termina no dia em que a moça resolve abandonar a profissão e cuidar da família. Carente, com as forças do desejo gritando pelo corpo, cai na tentação de seduzir uma de suas alunas. Mesmo sabendo que não deve se envolver com a garota, a libido toma conta da situação e coloca a razão de escanteio, de castigo e ajoelhada no milho.
O caso vem à tona e Lurie é acusado de abuso sexual. Sofrendo pressão e humilhação, tanto por parte dos alunos, familiares da jovem, imprensa, como dos colegas de trabalho, passa por um julgamento da direção da universidade. Admitindo sua culpa no caso, recusa-se a redigir um documento que tenta escamotear os fatos, declarando-se arrependido. Numa postura ética, faz questão de deixar claro que considera-se culpado e deve ser punido, mas não sente-se arrependido por ter ferido a razão e o bom senso.
Com sua peculiar ironia, Lurie afirma que ‘‘talvez esteja certo evitar que os jovens vejam os mais velhos nos espasmos da paixão – é para isso que existem as putas, afinal: para aguentar os êxtases dos não-atraentes’’. Se por uma lado declara-se culpado, por outro não quer admitir o arrependimento. Acredita que o arrependimento pertence apenas ao universo do discurso, não da realidade.
Tudo termina com sua demissão, sem direito à aposentadoria. Isolado e hostilizado, resta-lhe abrigar-se na casa de sua filha única, Lucy. A moça, uma ex-hippie, vive num sítio no interior da África do Sul. Homossexual, Lucy divide seu tempo entre o cultivo de flores, que vende semanalmente numa feira, e a assistência de cachorros abandonados.
Lurie passa a viver num contexto diverso, vendo de perto a realidade da relação entre negros e brancos numa período ‘‘pós-apartheid’’. Ocupa seu tempo como voluntário de uma organização empenhada em recolher cães doentes e abandonados da rua. Não trata-se exatamente de um asilo para cães, mas um lugar que alivia suas dores através da eutanásia. Sua função é acalmar os animais no momento em que é aplicada a injeção fatal.
No intervalo entre as dezenas de brigas entre pai e filha sob o mesmo teto, ocorre um episódio que tornará a convivência ainda pior. A casa é invadida por três negros que, além de roubarem o local, ateiam fogo no corpo de Lurie e estupram Lucy. Na realidade trata-se de um simples vingança dos nativos contra a supremacia e opressão dos brancos exploradores.
A partir desse momento uma nova luta toma corpo entre pai e filha. De uma lado, Lurie pretende enfrentar o problema de frente; de outro, Lucy deseja encarar o drama de uma outra forma, realizando uma série de concessões de acordo com os costumes do locais.
Em ‘‘Desonra’’, J. M. Coetzee oferece uma surpreendente gama de relações humanas sem isolá-las para melhor focalizá-las. Consegue abordá-las de maneira despretensiosa a partir do todo. A lista não é pequena: pai e filha, desejo e razão, justiça e injustiça, brancos e negros, amantes e amigos, velhos e jovens, homens e animais, poder e dever, explorador e explorado, violência e traquilidade, miséria e riqueza, etc.
Como a maioria dos romancistas contemporâneos, Coetzee não apresenta uma conclusão clara e definida no final de ‘‘Desonra’’. Sua narrativa não está empenhada em fechamento de idéias, mas em abertura. Em outras palavras, as últimas linhas do romance não podem ser consideradas como fim, mas como começo. (M.L)
• ‘‘Desonra’’ de J. M. Coetzee, Editora Companhia das Letras (telefone (11) 3846-0801), tradução de José Rubens Siqueira, 248 páginas. R$ 26,00.

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