O personagem de Benicio Del Toro é o mais rico em nuances; pena que demore um bom tempo antes de dar as caras
O personagem de Benicio Del Toro é o mais rico em nuances; pena que demore um bom tempo antes de dar as caras | Foto: Divulgação



Um dos bons momentos do primeiro "Sicario", de Denis Villeneuve (2015) – retrato fatalista e brutal da guerra suja dos EUA contra os cartéis de drogas – era a primeira aparição na tela de Matt Graver (Josh Brolin), misterioso operador da CIA que, logo descobrimos, organizava assuntos de segurança nacional metido não em um bem talhado terno escuro, mas em regatas e chinelos. Em sua primeira cena nesta sequência vemos que ele continua adotando o estilo casual-esculhambado vertente homeless, mas há mudanças no personagem. Sumiram as inúmeras idiossincrasias que ele carregava há três anos. Talvez seja porque já conhecemos o monstro que se esconde sob essa fachada despreocupada e, portanto, não há motivo para escondê-lo; ou talvez seja porque a idealista agente do FBI, Kate Macer (Emily Blunt), centro moral daquele filme, não faz mais parte deste universo de abjeções, e assim Graver não tem mais a quem mostrar uma faceta amável dos atos terríveis que comete. Seja por qual motivo for, este Graver de agora perdeu no caminho parte da brutal dureza do personagem. Não ganhou nada em doçura. Continua duro e bruto, apenas tornou-se menos explicitamente amoral.
Derrubando o refrão popular de que "segundas partes nunca são boas", "Sicario: O Dia do Soldado" contorna o medo projetado quando se anunciou a continuação: mesmo sem alcançar o nível de excelência do original, dá conta do recado pelas mãos do italiano Stefano Sollima ("Gomorra", a série) e resulta em thriller de muito boa manufatura. E isto por causa principalmente do laborioso roteiro de Taylor Sheridan ("A Qualquer Custo" e "Terra Selvagem", que também dirigiu). Prestigioso, vem adquirindo status de escriba talentoso. E aqui ele recrudesceu sua própria dramaturgia de "Sicário – Terra de Ninguém", aportando doses extras de acidez, aproveitando a atual e ambígua realidade sociopolítica dos Estados Unidos e extraindo pedras preciosas da amoralidade e falta de escrúpulos de uma dupla de protagonistas tão complexa como extraordinariamente interpretada por Benicio Del Toro e Josh Brolin.

TENSÃO
No centro da trama, imperam tensas atmosferas que, de tão densas, poderiam ser cortadas a golpes de faca. Uma obscuridade que impregna o relato a níveis visual e conceitual, temperado por essa violência dura, seca e empoeirada, como é a convulsionada zona fronteiriça que separa o México dos EUA. Nesta sequela, a preocupação corre por conta de quem entra a qualquer custo em território estadunidense; entre os imigrantes ilegais há agora terroristas, e isto preocupa ainda mais o departamento de Estado. A solução pode estar em uma guerra entre cartéis, que vai ter a engenharia de Graver (Brolin). E de seu colaborador habitual, Alejandro Gillick (Del Toro), sobre quem soubemos em "Sicario" que é um ex-advogado convertido em espécie de justiceiro depois que sua família foi assassinada por um barão dos narcos.
"Desta vez não há regras", diz Graver sobre a missão. E isso inevitavelmente coloca uma interrogação: desde quando houve regras? Graver e Gillick não praticavam torturas e assassinatos a sangue frio no filme anterior? Seja como for, o plano é sequestrar Isabela (Isabela Moner, uma revelação), a filha adolescente de um senhor da droga, para que um narco rival leve a culpa e os dois cartéis cheguem a um enfrentamento. Mas as coisas se complicam; e o conflito que ocorre entre Graver e Gillick é o mais interessante em "O Dia do Soldado", que no entanto somente será resolvido numa terceira parte que fatalmente ocorrerá. O personagem de Del Toro é o mais rico em nuances; pena que demore um bom tempo antes de dar as caras. Fazem falta também as complexidades morais e éticas que no passado regiam suas ações.

EQUILÍBRIO
Título (sicario = sicarius = homem da adaga) e subtítulo (o dia do soldado) se referem a assassino de aluguel, sua formação e "diplomação" no território de ilegalidades em geral. Uma sequência creepy (e magnífica) no terço final mostra essa iniciação de adolescentes cooptados pelos cartéis. O filme, por este e outros momentos de cinema de qualidade, oferece um acurado equilíbrio entre forma e fundo, passaporte mais que suficiente para conduzir o espectador por uma cruenta descida aos infernos onde se misturam integridade e decomposição moral. Por isso está longe de ser um espetáculo, digamos, confortável.

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