O descobrimento em ritmo de aventura
ENTREVISTA
O descobrimento em ritmo de aventura
Eduardo Bueno usa linguagem de crônica nos livros da coleção Terra Brasilis e entra para a lista de best sellers
ReproduçãoEduardo Bueno: Continuo amando a aventura da História Claudia Ogrizek e Ricardo Moreno
Especial para a Folha2
Livros de história nunca foram assíduos frequentadores da lista de best sellers no Brasil. Essa máxima está sendo quebrada com o lançamento da coleção Terra Brasilis (Editora Objetiva), organizada pelo jornalista Eduardo Bueno. O livro A Viagem do Descobrimento - A verdadeira história da expedição de Cabral, o primeiro da série, não sai da lista dos mais vendidos há meses. O mesmo vem acontecendo com o segundo, Náufragos, Traficantes e Degredados. Ainda faltam outros quatro títulos.
Bueno prepara-se para lançar o terceiro da coleção, O Rei, a Fé e a Lei, no final de abril. Tudo aproveitando o crescente interesse do público pela nossa história, graças à proximidade dos 500 anos da chegada de Cabral ao Brasil.
ReproduçãoNa semana passada, Eduardo Bueno deu um tempo nas pesquisas, e contou à Folha2 tudo sobre esta coleção que conquistou os leitores e dividiu os críticos. Leia, a seguir, trechos da entrevista:
Você esperava que os livros da coleção Terra Brasilis fossem fazer tanto sucesso?
Não. Nem eu, nem ninguém. Achava que cada publicação pudesse vender uns 20 mil exemplares, o que no Brasil já configura um best seller. Mas a explosão que houve foi uma surpresa para mim, para a editora e para o próprio mercado.
O terceiro livro, O Rei, a Fé e a Lei está para sair e já deve haver uma razoável expectativa em relação a ele. Como você se sente?
Muito otimista. Acho o livro o melhor da coleção até agora. Aliás, se não achasse, nem sei se teria ânimo para escrevê-lo. Mas o assunto - as capitanias hereditárias e os dois primeiros governos-gerais - tem sido explorado de uma forma um tanto maçante na maioria dos livros. Também por isso estou entusiasmado: o tema é fascinante e, acho eu, ainda não havia sido abordado da forma como estou fazendo. Espero que a resposta não soe muito pretensiosa. É apenas entusiasmo mesmo.
Quantos livros serão ao todo e quantos escritos por você?
A coleção Terra Brasilis terá seis volumes. Vou escrever os seis.
Quando os dois primeiros livros da coleção saíram, os outros já estavam prontos ou ainda sendo escritos?
Quando o primeiro saiu, comecei a escrever o segundo. Quando o segundo saiu, comecei a escrever o terceiro. Acho que vai ser assim até o sexto.
E isto não causa uma pressão muito grande?
A pressão aumentou, é claro, mas estou muito consciente do que quero fazer e de que forma pretendo escrever cada um dos livros. Já vi todos eles na minha mente - e há muitos anos. Portanto, estou tranquilo. E otimista também. Não sei se os demais volumes vão vender tanto quanto os dois primeiros. Espero e gostaria que sim. Mas se venderem 20 mil cada um - e isso tenho certeza de que venderão - já está bom.
Como surgiu a idéia desta coleção?
A idéia foi minha. Gosto muito de história colonial do Brasil, desde a adolescência. E sempre achei que a maioria dos livros não contava essa história em ritmo de aventura. E, para mim, ela sempre parecerá uma aventura extraordinária. Então, depois de fazer uma série de 40 fascículos colecionáveis para os jornais Folha de S. Paulo e Zero Hora sobre a história do Brasil, desde a pré-história até FHC, resolvi propor a coleção para a Objetiva. Eles toparam, assinamos o contrato e sentei para escrever. Tem dado certo.
Eduardo Bueno, o Peninha é um homem que gosta de adjetivar pessoas e situações. Existem historiadores reclamando desse seu estilo, digamos, marcante?
De início, achei que os historiadores pudessem torcer o nariz. Felizmente, todos os que entraram em contato comigo até agora - e foram vários, e os que considero os melhores - gostaram muito. Isso me deixou tremendamente feliz. Na verdade, até agora, só quem falou mal dos livros, que eu saiba, foi Diogo Mainardi, na Veja. Mas quem ainda dá bola para o pobre Diogo Mainardi e para a arrogância da Veja? Com isso, no entanto, não quero dizer que meus livros sejam perfeitos e não mereçam críticas. Não são perfeitos e têm os seus defeitos, é claro. Mas não aqueles apontados pelo crítico obtuso ao qual me referi.
Você sempre gostou de história? E agora, depois de pesquisar tanto, ama ou odeia?
Continuo amando a aventura da história. Continuo muito perturbado por certas perversidades e descaminhos da história do Brasil. O País, ao invés de sanar, incorpora e potencializa seus equívocos e seus defeitos. Bem triste.
Os seus livros são mais leves e não carregam um ranço antigo, mas mesmo assim há um número infindável de nomes e números que muitas vezes deixam o leitor perdido no tempo e no espaço. Tem alguém ajudando você a não se perder nessas datas e lugares?
Não. Tenho feito tudo sozinho. Mas concordo com a observação. Na verdade, acho que esse é o principal defeito dos livros - mais especialmente do segundo. Acho que uma cronologia na abertura ou no fim do livro, ajudaria o leitor a se orientar. Eu tenho todos os nomes e todas as datas na cabeça. Mas não posso exigir que o pobre leitor também as tenha: na verdade, minha obrigação era facilitar a vida do leitor. Mas tenho escrito com muita rapidez, por uma série de motivos, e não tive tempo de fazer a cronologia, nem de calibrar melhor o vaivém do tempo. Estou tentando fazer isso no terceiro volume, mas não estou certo de que esteja conseguindo.
E para depois da série, você tem algum plano?
Por enquanto, só penso em terminar o terceiro volume - O Rei, a Fé e a Lei - que vai tratar, como já falei, das capitanias hereditárias e dos dois governos gerais. Deve ser lançado na Bienal do Rio, em fins de abril. Depois, vou descansar um pouco e, a seguir, tocar os outros três volumes: sobre a invasão francesa do Rio, sobre os bandeirantes e sobre o Brasil holandês. Depois de um novo descanso, pretendo escrever alguma coisa sobre a geração beat e sobre Bob Dylan. Estou afastado desses dois assuntos, que me interessam muito e sempre fizeram parte da minha vida. Quero me dedicar um pouco a eles também. Depois disso tudo, espero poder voltar a pegar a estrada e viajar bastante por aí... Minha velha mochila está sentindo falta da poeira das trilhas.





