É muito dificil encontrar atualmente um cinema que desprenda tão poderosa sensação de realidade-verdade quanto este que confeccionam os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, nos últimos oito anos por duas vezes ganhadores da Palma de Ouro em Cannes: em 1999 com ''Rosetta'' e ano passado por ''A Criança'', filme que chega hoje ao circuito local (veja a programação de cinema na página 2).
Como nas cinco vezes anteriores em que alimentaram férteis debates sociais (só realizaram meia dúzia de filmes), os Dardenne novamente oferecem uma generosa ração de cinema social direto, sem adulterações. Como aplicados entomólogos, em ''A Criança'' eles voltam a materializar, mais que um filme, um diagnóstico exato de alguns dos piores males que assolam a chamada sociedade do bem-estar. No caso a européia, mas com incisivo recorte universal.
Bruno (Jéremie Renier) e Sonia (Deborah François), 20 e 18 anos respectivamente, são o jovem casal que tenta sobreviver na inclemente paisagem pós-industrial da cidade de Seraing, ao norte da Bélgica. Os pequenos roubos dele e o subsídio que ela recebe sustentam a frágil economia familiar, que ainda abriga luxos desnecessários. Bruno e Sonia, rigorosamente, são filhos do desamparo que, de repente, se defrontarão com a responsabilidade de se tornarem pais. Aos olhos de Bruno, o recém-nascido será visto como instrumento para sair da vala comum dos desvalidos, mercadoria de compra e venda que poderá trazer benefícios imediatos no mercado negro.
Assim, ele vende o recém-nascido Jimmy sem que Sonia saiba. Quando informada, a mãe entra em estado de choque. ''Pensei que podíamos fazer outro'', diz Bruno a título de consolo. A culpa não tardará em dar uma guinada na situação. O pai tentará recuperar o bebê, transformando o filme dos Dardenne numa espécie de arrepiante thriller social capaz de tirar o máximo proveito da combinação de órgãos vitais do espectador: coração e cérebro. Combinação que, de resto, passa ao largo das chantagens e artimanhas contrabandeadas mundo afora pela fábrica de ilusões da costa oeste dos Estados Unidos. Muito pelo contrário.
''A Criança'' ou ''L'Enfant'' - título original que tanto se refere ao filho comercializado como a qualquer dos pais imaturos e infantilizados - não idealiza situações ou personagens. A narrativa dá acesso às entranhas do horror diário, da tragédia que é viver na miséria mais absoluta, tanto em nível econômico como moral. Por isso os protagonistas que habitam o universo dos Dardenne são gente humilhada, asfixiada pela opressão, mas que necessariamente não têm que cair nas graças do espectador. Sua complexidade psicológica se estende muito além de maniqueísmos. São seres de carne e osso, com suas misérias e baixezas, com suas ilusões e sonhos em frangalhos, com seus atos de discutível aprovação.
Filmado em cenários naturais no estilo que é marca registrada dos cineastas - frio, seco, câmara na mão iluminada só pela luz ambiente, despojado de todo ornamento superficial, depurado, essencial, ascético, nenhuma presença de musica a não ser uma rápida interferência do ''Danubio Azul'' -, ''A Criança'' é grande cinema porque é cinema de luta, que nos aproxima destas vítimas da sociedade saciada, destes seres que se equilibram precariamente nas franjas do vasto tapete do consumo. Seres que com muita e cômoda frequencia julgamos e sentenciamos sumariamente porque nossa capacidade solidária foi induzida à hibernação. (C.E.L.J.)

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