Eles não tomam banho, praticam a circuncisão e a poligamia, vivem exclusivamente da criação de gado, usam a manteiga como cosmético e amam os amplos horizontes. É incrível pensar que os hereros, uma etnia de 240 mil pessoas, vivam assim em pleno século 21. Mas foi exatamente isso que o fotógrafo Sérgio Guerra encontrou quando os viu pela primeira vez, em 1999, durante uma viagem a Angola. Fascinado pelos seus hábitos e sua história, Guerra voltou a encontrá-los sete anos depois. Nesta segunda visita, ele ficou dois meses com eles. O resultado é o livro 'Hereros - Angola', que ele está lançando pela sua editora, a Maianga, além de um documentário e uma série para televisão, ainda em produção.
Junto com as fotos, o livro traz depoimentos dos hereros sobre seu modo de vida, a importância das tradições, sua relação com os bois, a questão da poligamia, do casamento, da circuncisão e o olhar deles sobre outras culturas.
Divididos em cinco grupos com línguas e costumes diferentes, os Hereros ocupam parte da Angola, Namíbia e Botsuana. Ninguém sabe ao certo a origem desse povo bonito, de traços delicados, com costumes que remontam há mais de três mil anos. Acredita-se que eles possam ter vindo da região do Nilo entre os séculos XII e XV. ''Quando os vi pela primeira vez, foi como se uma porta da minha percepção tivesse sido aberta para algo que sabia existir, mas hesitava em acreditar'', conta Guerra, em entrevista para a FOLHA.
Como foi o tempo em que você viveu com eles ?
Muito produtivo. A gente tem o costume de querer impor nosso sistema de estar e ser e acaba atropelando e desrespeitando outras culturas que não condizem com o que a gente pensa. Mas lá, aos poucos, fui me abrindo e comecei a entender essa outra lógica, essa outra possibilidade de ser.
No livro você ressalta apenas aspectos positivos da cultura deles. E os negativos?
Os próprios depoimentos deles falam do problema do roubo, da questão do alcoolismo, da circuncisão, que é violenta.
Você acredita que esse tipo de vida deve ser mantido?
Eu acho que pode acontecer de eles chegarem a ter alterações na cultura deles. A manutenção do patrimônio e da riqueza deles passa necessariamente pela preservação da cultura. A propriedade é da família, é coletiva, eles têm essa dimensão. O que segura a cultura deles é esse sistema econômico, é uma relação indivisível. No entanto, acredito que eles podem ter um desenvolvimento sem perder suas tradições. Estamos montando um material didático na língua deles para tentar estabelecer uma escola onde eles mesmos possam ser os professores.
Você usou fotos coloridas e em preto-e-branco no livro. Quando você optava por uma e por outra?
Isso foi mesmo intencional. Foi uma opção minha. Algumas fotos, mesmo sendo coloridas, em resolvi passar para p&b. Foi o caso da circuncisão, o sangue pegava muito, era chocante. Fiz isso para atenuar um pouco a imagem.
Do que você sentiu mais falta enquanto esteve lá?
De um bom banho (risos). De água fria mesmo já servia!
E aqui, quando pensa neles, do que você sente falta?
Do ritmo da vida. É tão diferente... Vou tentar explicar. Fomos convidados para uma festa. Chegamos lá no lugar, não tinha boi, não tinha nada. Ia começar no outro dia. No outro dia, nada do boi. Ficamos assim, três, quatro dias esperando o boi chegar. No quinto dia, chegou o boi. Daí, a gente ia sair com o boi e subir a montanha onde estava o túmulo do falecido que ia ser homenageado com a festa. Perguntei se iríamos no dia seguinte... Eles me responderam que não, os bois estavam cansados. Então, a noção de tempo é completamente diferente, não existe pressa, nem pressão.
Como eles reagiam diante das fotos e do trabalho da sua equipe?
Fomos muito bem recebidos e tratados. Até porque foi tudo muito bem combinado. Eu me recuso a fotografar alguém sem conversar antes, sem deixar bem clara minha intenção. Eles se abriram porque têm interesse em divulgar sua cultura, em função da preservação do seu modo de vida.
Qual será sua próxima viagem?
Pretendo voltar lá, até por causa do projeto da escola. Também pretendemos transformar esse material em um filme, tenho 150 horas de imagens captadas. Vamos fazer uma série de tevê e um documentário. Quero ainda sair para fazer o resto do país, para retratar esse grande mosaico étnico que é a Angola.
SERVIÇO
- Hereros - Angola
Autor - Sérgio Guerra
Editora - Maianga
Quanto - R$ 190 (260 págs, edição bilíngue, formato 30cm x30cm, capa dura). Acompanha o livro um cd de 18 faixas com cantos cotidianos registrados ao vivo.

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