O desafio de escrever para crianças
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segunda-feira, 19 de junho de 2006
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
Nem todo bom escritor é também um bom contador de histórias. E isso vale principalmente quando os holofotes estão voltados para o público infanto-juvenil. Na última semana, alunos do Colégio PGD em Londrina compartilharam experiências com Pedro Bandeira, um autor que ''ama aquele que vai ler''. Os olhos entretidos das crianças, enquanto ele contava de modo performático histórias de sua vida, apenas endossam o título de escritor que mais vende no Brasil: com 75 títulos publicados, os exemplares ultrapassam a marca dos 9 milhões. Durante uma feirinha de livros que o colégio realizou, Bandeira autografou livros, deu conselhos, fez brincadeiras e cativou total atenção de seus pequenos leitores.
Nascido em Santos, litoral paulista, o autor já trabalhou com teatro, propaganda e jornalismo, mas desde que descobriu seu talento para criar histórias, ser escritor é a função que mais lhe dá prazer.
Seus últimos livros foram lançados esse ano: ''Alice no País da Mentira'' e ''Histórias Apaixonadas'', ambos pela Editora Ática. Mas foi com ''A Droga da Obediência'' que Bandeira conquistou definitivamente credibilidade com os adolescentes. O escritor já recebeu diversos prêmios, entre eles Jabuti, APCA e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Avô de cinco netinhas, o autor revela, em entrevista concedida a Folha2, que o incentivo para a viagem ao maravilhoso mundo das letras deve ser iniciado ainda no colo dos pais. A seguir, os principais trechos.
Qual é a sua 'fórmula mágica' para conquistar tanto o público infantil? E o que motiva as crianças a ler um livro até o fim?
A arte foi inventada pela humanidade para agradar ao outro. Ninguém faz uma música pretendendo desagradar aos ouvidos das pessoas, ninguém pinta um quadro para que o achem horrível. O artista procura atrair o outro, para que seja gostoso. Você só consegue realmente agradar quando você conhece a criança, o adolescente, sabe o que ele sonha, do que tem medo, o que o faz ficar feliz, triste ou nervoso. Isso tem que ser tansformado em arte, e é onde entram o talento e a sensibilidade. Como eu escolhi a educação, eu tive que me dedicar muito estudando essa gente. Minha formação é em Ciências Sociais, apesar de sempre ter vivido como jornalista minha vida sempre foi escrever. Então eu me questionei ''quem é esse público?'', pois não é só contar uma história e achar que a criança vai gostar. Quem é uma criança com oito anos, o que ela pensa? Qual o seu nível de compreensão?. Essas coisas todas você tem que saber. Para uma criança com doze anos já é outra coisa. O centro de sua vida não é a casa, pois está tentando se tornar adulto. Você tem que saber que está havendo um despertar hormonal que antes não havia. Escrever bem uma história com bruxinhas pode ser um livro muito chato pra criança se você não a conhece. Há grandes autores na minha área que fazem livros muito bonitos e poéticos, mas que não agradam às crianças, pois não pegam a alma da criança.
Dizem atualmente que o professor deve ser meio artista para poder cativar seus alunos que hoje têm acesso à internet, videogames, CD-roms, etc. Você compartilha dessa idéia?
O professor não é diferente do que jamais foi. Ele não é uma pessoa feita pra ensinar, mas para apresentar, estimular, propor, cativar, seduzir o aluno aprende sozinho, se quiser. Então esse professor tem que ser realmente artista, psicólogo, orador, piadista, pois ele precisa cativar os alunos. Os alunos têm que gostar do que estão ouvindo e se sentir estimulados a continuar aprendendo o que está sendo proposto. É uma profissão muito difícil, ainda mais no Brasil, onde nossas famílias não levaram à criação de pessoas interessadas pela leitura. O Brasil sempre foi um país não leitor que agora está tentando mudar. Mas toda essa revolução cultural ficou nas costas do professor e a família não é responsável por isso. Na Europa e Estados Unidos quem compra o livro é o pai, a mãe, a vovó e o vovô, enquanto a escola pede para ler Geografia, Matemática. As professoras acabaram sendo as únicas responsáveis pela apresentação de tudo para uma criança. Vamos parar de colocar a culpa no videogame e no computador, pois antes mesmo de haver esse tipo de tecnologia, ninguém lia no Brasil.
Nas feiras de livros, o público infantil tem sido bastante significante. Há inovações nos formatos, por exemplo, com livros à prova d'água, ilustrados com dobraduras, interativos, etc. Você acredita que o aspecto literário propriamente dito acaba se perdendo nessa tentativa de cativar as crianças?
O visual é uma leitura importante para a criança pequena. Ela lê as ilustrações, por isso eu defendo muito as histórias em quadrinhos. As crianças lêem pouco gibis hoje em dia, mas a leitura visual é uma preparação para a leitura literária. Quando a criança começa a folhear um gibi e percebe que tem um balão, ela começa a inventar na cabeça dela uma história. Isso é alfabetizador, pois ela quer aprender o que está escrito dentro dos balões. E aos poucos ela vai conseguindo. Então uma ilustração bonita acaba atraindo os pequenos. Se o papai lê uma história bonita e mostra o livro, a criança fica louca para ler também. É uma pré-leitura; da ilustração para o texto. A partir dos 12 anos, o ideal é que você não coloque ilustrações nos livros, pois eles preferem imaginar os personagens e não vê-los desenhados.
O que decididamente fez com que você optasse pela carreira de escritor?
Desde o início eu sempre trabalhei em jornal. Era com o jornalismo que eu pagava minhas pensões e minha comida. Fiz teatro também porque gostava, mas era uma profissão extremamente mal paga; você vive desempregado até conseguir outra peça. É muito difícil viver só disso. Como escritor, eu crio o que eu quero, ou seja, eu faço a arte que eu acho que devo fazer. Além do jornalismo, eu também fiz trabalhos de propaganda e tudo ligado ao texto. Já mais maduro, com 30 anos, eu trabalhava na Editora Abril, e começaram a pintar uns '''freelances'' de pequenas histórias infantis para a própria editora. Agarrei isso com unhas e dentes. Comecei a escrever, cumpria prazos e comecei a gostar disso. Até que uma amiga minha, professora de Literatura na Unicamp, Marisa Lajolo, perguntou por que eu não escrevia um livro, já que tinha mais de 300 historinhas. Então peguei uma das histórias, ampliei e fiz um livro. Logo depois eu fiz essa aventura chamada ''Droga de Obediência'', que se tornou o livro juvenil mais vendido do Brasil. Foi quando eu dedici abandonar a relação de ''patrão X empregado''. Tive que estudar muito, pois fui para uma área que não tinha um interesse profissional pela educação. Não pensava que iria me tornar um educador. Hoje eu me considero meio educador e meio escritor. Eu entendo meus livros num processo de uma revolução educacional necessária ao País.
Quando você era criança, o que te motivava a ler?
Isso de ser motivado é uma coisa de amor. Eu sempre adormeci no colo da minha mãe - eu não tive pai, pois ele morreu quando eu ainda estava na barriga da minha mãe. Ela sempre me contava histórias. Me lembro desde tenra idade ela me contando sobre ''A Branca de Neve'', ''Chapeuzinho Vermelho'', ''Cinderela'', e aquilo era fascinante. Eu acho que desde então eu comecei a me interessar pela literatura: por causa dessa introdução à Literatura no colo da mamãe. Tem que começar desde pequenininho, pois a voz da mamãe é o som mais importante para a criança. Hoje em dia existe muita dificuldade de alfabetização, pois há crianças que, ao se depararem com certas dificuldades, passam a achar que ler é chato, pois elas lêem mal. Isso foi uma das coisas que eu descobri como alfabetizador. Criança que não gosta de ler é porque lê com dificuldade, ela foi mal-alfabetizada, então deveria ser re-alfabetizada, o que não acontece. Hoje, se você pegar redações de vestibular, muitas são ilegíveis, esse é o grande problema. Os gibis também foram importantes para mim. E como eu era um menino solitário eu tinha dois irmão muito mais velhos do que eu os livros foram a minha companhia.
Literatura infantil 1
Ruth Rocha já publicou mais de 130 livros no Brasil e 28 no exterior, lidos por pessoas de todas as idades. O humor e o sorriso moreno desta paulistana filha de cariocas vêm também de seus avós (uma mineira, um paraense, uma sergipana e um baiano).


