Dedo serve para usar anel, apontar coisas, intimidar, tirar caca do nariz, provar doce, fazer carinho, apertar gatilho, carimbar digital, dar prazer, denunciar, virar página de livro, retocar o batom, coçar o saco e outras centenas de coisas. O dedo é capaz de todo e qualquer gesto. Isso porque talvez a mão seja uma prática e simbólica invenção. Aquela que, com os dedos, é capaz de afagar e apedrejar.
Os cinco dedos das mão polegar, indicador, médio, anular e mínimo serviram de inspiração para a Editora Objetiva criar uma nova coleção literária que começa a ser publicada, a coleção ''Cinco Dedos de Prosa''. A idéia é simples e ao mesmo tempo inusitada. Escritores brasileiros foram convidados a escreverem romances com histórias que giram em torno dos dedos os populares mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura bolo e mata piolho.
O primeiro título da série, ''O Indigitado'', escrito por Carlos Heitor Cony já pode ser encontrado nas livrarias. Nele, o escritor e jornalista carioca apresenta uma história que gira em torno do dedo indicador, colocando-o como personagem coadjuvante do romance. O próximo volume ''O Efeito Urano'' de Fernanda Young, abordando o dedo médio, será publicado em setembro. ''Buscando o Mindinho'' de Mario Prata, focalizando o dedo mínimo, será lançado em novembro. Os outros serão lançados no primeiro semestre de 2001, com Luis Fernando Verissimo escrevendo sobre o polegar e Manoel Carlos, em sua estréia como romancista, falando sobre o anular.
Literatura feita sobre encomenda é negócio arriscado. Pode gerar bons resultados. Como também pode gerar péssimas obras. O mercado editorial nos últimos anos vem apostando nessa idéia. Primeiramente a Editora Objetiva apostou na coleção ''Plenos Pecados'', depois foi a vez da Companhia das Letras investir na série ''Literatura ou Morte''. O lançamento de ''Cinco Dedos de Prosa'' assinala que a idéia deu certo. Pelo menos em termos de mercado.
''O Indigitado'' revela um bom momento da literatura de Carlos Heitor Cony. Mais conciso que suas obras anteriores, sugere que a melhor maneira de focalizar um dos dedos é justamente suprimi-lo da mão. Utiliza isso para abordar um tema mais abrangente, a identidade. Mas especificamente a busca da identidade, seja ela perdida ou em formação.
A história é narrada por um homem à procura de sua identidade, algo que acredita nunca ter possuído. Tudo começa quando, ainda bebê, ele é trocado no berço por outra criança. O caso é provocado por uma cigana, graças ao descuido de uma tia. A partir desse dia, o narrador deixa de ser ele mesmo para ser um outro. A outra criança também deixa de ser ela própria para ser ele. Assim, de uma lado, um menino cigano passa ser criado como não-cigano. De outro, um menino não-cigano passa a ser criado como cigano. Heitor Cony coloca em prática, e ao pé da letras o lema rimbaudiano ''o eu é um outro'' e chega a inverter as bolas para ''o outro é um eu''.
Cada um dos garotos crescem deslocados de suas personalidades. Quando adulto, o narrador decide que o único sentido de sua vida está em descobrir quem ele é, ou seja, encontrar aquele pelo qual foi trocado no berço. Sua única pista é um sinal físico: o outro bebê nasceu sem o dedo indicador da mão direita. Para isso se dedica em viajar pelo Brasil e pelo mundo atrás do ''outro'' que seria seu ''eu''.
O maior valor de ''O Indigitado'' repousa no trabalho de Cony inserir no romance duas tramas na mesma narrativa. Uma, estaria atrelada aos fatos apresentados, na sucessão dos acontecimentos. A outra, estaria atrelada ao conflito psicológico do narrador em sua busca pela identidade. Embora uma esteja vinculada à outra, caminham como um constante jogo de papéis.
O termo ''indigitar'' é geralmente utilizado para designar o ato de apontar com o dedo. Partindo desse significado, é possível dizer que o romance aponta para aquele que se recusa em apontar. Aquele que pode existir sem o mundo, mas o mundo sempre faz questão de lembrar que precisa dele. Mesmo que seja para nada.
Quando o narrador finalmente encontra o ''outro'', aquele que seria ''ele'', atinge a libertação. Ou seja, assume a própria identidade. Nesse momento o ''outro'', dá início a um plano, seguindo a moral cigana, de fazer justiça ao episódio que determinou definitivamente a vida de ambos, a troca dos bebês. Um plano que envolve assassinatos e outras artimanhas. Para completar as coisas, Cony coloca a mulher do ''outro'' arrastando as asas para o ''eu'', o narrador.
Em ''O Indigitado'', o autor felizmente não fecha as questões que abre no decorrer da narrativa. Elucida algumas e deixa outras abertas. Como se afirmasse que o destino não comporta a clareza, que sua natureza abriga a nebulosidade.
Dias atrás, Carlos Heitor Cony esteve em Curitiba autografando seu novo romance. No dia 10 de setembro estará em Londrina fazendo o mesmo. Na ocasião proferirá uma palestra na Biblioteca Municipal.


q O Indigitado - De Carlos Heitor Cony, coleção Cinco Dedos de Prosa, Editora Objetiva, 182 páginas, R$ 22,90.

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