O dândi da novela das oito
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sábado, 30 de março de 2002
Zeca Corrêa LeiteEquipe da Folha 
Curitiba - A próxima novela das oito da TV Globo, Uê Paisano, a segunda da trilogia de Benedito Rui Barbosa, iniciada com Terra Nostra, colocará no rol da fama um novo ator: Ranieri Gonzáles. O curitibano que fez um pequeno papel em A Força de um Desejo conquistou discreta projeção nas cenas, à medida que o público mostrava-se simpático ao seu personagem, Reinaldo, dono de uma estalagem além de uma ponta em A Feiticeira, agora está sendo preparado para ser destaque na trama ambientada nos anos 30.
Faço Maurício, um brasileiro que estudou na Europa e volta ao Brasil com toda uma educação européia. Ele é dândi, elegante, fino. Até usa um leque para se abanar o leque faz parte da rotina dele, não larga para nada. Só que na fazenda onde mora, as pessoas acham que ele é um maricas, mas não é. E como faz pugilismo, dá uma surra num sujeito por causa disso. Maurício só tem esse dandismo, essa elegância, diz.
Com 30 anos de idade, metade deles dedicada aos palcos, o artista a partir de agora vai se encerrar num outro mundo o do jovem dândi. A novela começa a ser gravada na Itália, em abril; Ranieri está escalado para começar os trabalhos em maio. Nem bem chegou na Globo e oportunidades começam a aparecer: ainda nos corredores da emissora foi sondado para um teste para o filme do Cazuza, que será dirigido por Daniel Filho. Enfim, novos tempos.
Como é para você estar na TV Globo?
Eu sempre fiquei assustado com a Globo, e agora estou novamente. Não é por causa do papel que é grande, mas pela dimensão. A dimensão é assustadora, o País inteiro vai me ver. Também fiquei surpreso porque foram eles que me chamaram. Falei para o Leo Gama, que é o produtor de elenco: Leo, você tem certeza que sou eu que vocês estão chamando para o papel? E ele falou que o papel era a minha cara, porque eu tenho uma cara antiga, de época.
De alguma forma ele está ligado à Terra Nostra?
Não sei se a novela tem alguma coisa com Terra Nostra. Algumas pessoas da Globo dizem que sim, outras que não. Ainda não recebi a sinopse da novela, então não posso falar muito sobre isso. O que eu sei é que da Terra Nostra só ficaram Raul Cortez e Ana Paula Arósio. Mas, falando do meu personagem, é super legal, de destaque. Tive que fazer teste para consegui-lo. Quando trabalhei como coadjuvante em A Força de um Desejo, fui chamado diretamente para o papel. Agora fiz três testes e tinha bastante texto para decorar. Acho que chamaram uns dez atores para escolherem um. Na segunda vez ficaram uns quatro e na terceira só tinha eu.
Você tem idéia de como será o seu Maurício?
Quando me chamaram para o teste imediatamente me veio a figura de Oscar Wilde, e até peguei um livro dele que tinha fotos, para ler. Estou estudando para não chegar de mãos abanando. Penso na delicadeza dele, no jeito de parar, de olhar, a maneira como deita a cabeça para falar, o cruzar das pernas de modo diferente dos outros rapazes, o jeito de abanar o leque, não porque esteja com calor, mas porque aquele leque já faz parte dele. Maurício vive num mundo diferente. Ele está mais para o etéreo que para a realidade.
Qual a importância do moço no transcorrer da história?
Como ainda não recebi a sinopse, só sei que Maurício chega na fazenda para viver vários conflitos. Um deles é com a mãe, que se tornou viúva e ficou amarga, outro conflito é ele ser um dândi; as pessoas não gostam muito. Haverá problemas também por se apaixonar por Catherine, papel que será defendido por Simone Spoladore que, aliás, também é daqui de Curitiba.
Como é sua convivência com o personagem?
Penso nele o tempo todo, até fazendo outras coisas. Tem horas que me flagro: pára um pouco, Ranieri. Você ainda está em Curitiba. Esses dias estava folheando uma revista e tinha um rapaz sentado de modo diferente, de modo masculino mas ao mesmo tempo frágil. Recortei essa foto e guardei. Quero estudar fotos da década de 30, entender melhor o jeito das pessoas da época. Fico pensando no Maurício se abanando com o leque, apontando para alguma coisa; o jeito dele parar, de colocar a mão na cintura. Penso nele o tempo todo. Acho que ele está ao meu lado, torcendo por mim.


