O cronista entre o terror e o êxtase
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de maio de 1999
Jota Especial para a Folha 2 
O cronista José Carlos Oliveira é uma das lendas nascidas da boêmia da Zona Sul carioca nos anos 60 e 70. Sua figura se afirmou quase como um personagem de ficção naquele circuito buliçoso de bares, boates, restaurantes, festas e porres intermináveis. Todos pareciam viver com um copo de uísque na mão e o olhar na garota de Ipanema que passava. E faziam questão de espalhar esse mito.
Carlinhos Oliveira - o apelido vinha de sua baixa estatura, 1,59 m sempre prontos para explodir - era figurinha carimbada. Órfão de pai, que suicidou-se quando ele tinha quatro anos, parecia carregar este carma na personalidade conturbada; umas doses a mais faziam dele um criador de casos, protagonista de histórias pitorescas que lhe deram fama de personagem folclórico. Morreu cedo - aos 52 anos, de pancreatite, em 13 de abril de 1986 - mas deixou uma obra marcante, das mais importantes da imprensa brasileira, nas crônicas escritas diariamente para o Caderno B do Jornal do Brasil, entre 1961 e 1984.
Nelas ficou um retrato impressionante daquela época conturbada e criativa. Cronista de elevada qualidade literária, era um tipo em extinção. Também tinha um texto provocativo - abria seu ponto de vista sem disfarces. Essas qualidades fizeram dele um dos jornalistas mais influentes nos anos 60 e 70.
Só a amnésia crônica que acomete o Brasil explica o esquecimento a que estava relegada uma personalidade tão fascinante. O jornalista Jason Tércio já começou o serviço de ativar nossa memória com Orfão da Tempestade (editora Objetiva, 480 páginas, R$ 43,00). É um trabalho bem informado, amplo, que desmente as lendas e revela fatos importantes da vida de Carlinhos Oliveira. Jason Tércio passou quatro anos pesquisando para escrever a biografia. Falou com 250 pessoas que conviveram com Carlinhos e leu mais de 2 mil crônicas, artigos e reportagens publicados desde o início de sua carreira os 16 anos - quando era chamado de Zé Precoce - em Vitória, no Espírito Santo, onde nasceu.
Para o biógrafo, Carlinhos pertence a uma linhagem especial de intelectuais do Rio de Janeiro iniciada no fim do século XIX a partir da proliferação de cafés e confeitarias no Centro, sendo o representante nas décadas de 60 e 70 de uma tradição de cronistas urbanos. Na sua opinião, a obra do cronista se divide em três vertentes básicas que, às vezes, se fundem: a confessional, sobre experiências pessoais cotidianas; a lírica existencial, com temas de solidão, desejo, amor, morte; e a factual, sobre acontecimentos políticos e culturais no Brasil e no exterior.
A diferença estilística com os demais cronistas da época - Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e também o poeta Drummond - era a agressividade. À ternura e lirismo, indispensáveis a todo cronista, Carlinhos acrescentava porretadas verbais de bom tamanho: pegava pesado. Comprava brigas que o deixavam quase sempre entre dois fogos. Ou até três. Alvejava esquerda e direita e ainda arrumava fôlego para encrencar com as feministas que então surgiam.
Carlinhos Oliveira viveu de modo dolorido a sina do escritor brasileiro sem leitores, vivendo em um país onde comprar livro é um luxo. Na imprensa encontrou seu ganha-pão e o espaço para experiências estilísticas: à maneira de folhetins, chegou a publicar longas histórias em sequência que depois retrabalhava para publicação em livro.
O uísque, engolido em quantidades assustadoras, também contribuiu para estorvar sua realização como escritor. As mitológicas histórias em torno de Carlinhos foram uma atrapalhação em vida e uma dificuldade para a compreensão de seu papel na cultura brasileira. O livro de Tércio Lins contribui para mostrar a seriedade de seu trabalho de cronista, resgatando o artista preocupado com a qualidade literária e o analista consciente da política e da existência.
Mas os clichês marcaram muito sua vida. O poeta Vinícius de Morais o definiu como o último dos clochards, vagabundos franceses. Carlos Heitor Cony fala em anjo sem rumo na apresentação de Órfão da Tempestade. É a análise anti-Carlinhos, e ajuda pouco a compreendê-lo. Carlinhos não era fácil e sabia muito bem disso. Suas mea-culpas, anotadas em seu diário íntimo, no fim da vida quando se converteu ao catolicismo - o ateu empedernido rezando à Nossa Senhora de Lisieux, parece crônica sua - tem razão de ser. Se autoflagela sem piedade nas anotações. E algumas dessas chicotadas foram bem merecidas. Implacável com os outros, Carlinhos tampouco se poupava. Minhas crônicas são péssimas e por isso mesmo qualquer delas parece boa, desabafa em seu diário. É o artista insatisfeito e consciente do longo caminho à frente. E o exímio frasista se revelando no tapa que dá na própria cara. Analisando sua linguagem, também no diário, foi ainda mais fundo em sua feroz autocrítica: Na ordem dos artistas, sou um batráquio. Tratar com paternalismo um homem desses é tolice.
Esses diários - preenchidos de 1975 até sua morte - são importantes para compreender o homem e o artista. Neles, Carlinhos levou às últimas consequências seu estilo franco e direto. Expõe suas dúvidas metafísicas, projetos literários e de vida, analisa seus amores e casos passageiros; há também trechos comoventes, dos dias próximos à sua morte, quando já estava fraco e sofria dores terríveis: Só não posso aceitar a idéia de vir a morrer sem ser em pleno combate. Produzindo incessantemente narrativas, artigos, crítica, meditações, teatro, estarei canalizando essas energias (vitais) para a atividade principal de minha existência. Esses diários, editados, podem vir a ser um de seus melhores livros.
No fim da vida Carlinhos Oliveira abominava o personagem folclórico que ele mesmo contribuiu para criar. Mas faltou-lhe tempo para acabar com a fama de desbocado e criador de casos. Este lado do cronista, evidentemente é bastante explorado em Órfão da Tempestade. Para bem ou mal da memória de Carlinhos, sua façanhas encantam até hoje. As histórias reais são até melhores do que as inventadas. O golpe militar de 64, por exemplo, surprendeu-o escondido em um sítio em Nova Friburgo. Um marido traído queria matá-lo.
Por conta de suas opiniões contundentes também acumulou problemas com a esquerda brasileira que naqueles anos de chumbo grosso não admitia deslizes políticos. Tenho horror aos comunistas brasileiros - não os comunistas históricos, mas os oportunistas mais recentes que industrializaram o esquerdismo, transformando-o em mercadoria de fácil assimilação nos lançamentos editoriais, na poesia, no teatro, no cinema, na crítica estética, escrevia em 1968. Com essa opinião, nem a igual contundência com que atacava a direita o livrava da pecha de reacionário por parte da esquerda. Mas não era um alienado político. A impressão que se tem é que colocava sempre a estética acima das ideologias políticas.
Quando a peça O Berço do Herói, de Dias Gomes, sofreu censura em 1966, sua voz foi dissonante da postura da época em aplaudir qualquer obra censurada. O Berço do Herói está para a dramaturgia política assim como o dispositivo de segurança do general Assis Brasil estava para a defesa do governo João Goulart escreveu em sua crônica no Jornal do Brasil. Apesar de solidário contra a censura, Carlinhos colocava a obra no mesmo plano do fracassado dispositivo militar de defesa da democracia. Era difícil de a esquerda compreender. Mas ele não se absteve de criticar os desmandos autoritários da direita. Suas crônicas de 1968 (publicadas recentemente no livro Diário da Patetocracia, Graphia Editorial) mostram um corajoso crítico do regime militar.
Hoje esse é seu único livro encontrável nas livrarias, mas Carlinhos Oliveira foi sucesso de público na década de 70. Deixou oito livros editados, entre eles quatro romances. Terror e Êxtase, lançado em 1977 pela Codecri, editora do jornal O Pasquim teve sua primeira edição de 5 mil exemplares esgotada em apenas um mês - número expressivo para a época - e chamou a atenção do cineasta Glauber Rocha, que tinha a intenção de filmá-lo. A tarefa acabou ficando para Antonio Calmon, que fez um filme decepcionante para Carlinhos. Seus melhores livros são os de crônicas. O Saltimbanco Azul, publicado em 1979 pela editora LP&M, de Porto Alegre, é uma obra-prima.
Já passou da hora de relançar seus livros e fazer uma reavaliação de sua obra. Órfão da Tempestade, de Jason Técio, é um importante começo para colocar Carlinhos Oliveira novamente na roda, como se dizia. Passada a ressaca - política e cultural - que assolou o Brasil naquele tempo, sua experiência é uma das referências importantes para o entendimento daqueles dias febris.


