O cronista dos boêmios
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de fevereiro de 1997
Cleide Cavalcante Agência Estado 
Arquivo FolhaPaulo Mendes Campos: O escritor aqui vive para ganhar o pão e o uísque de cada dia.Cronista, poeta, jornalista, tradutor. O mineiro Paulo Mendes Campos se encaixava em todas essas qualificações e era querido pelos boêmios do Rio, com os quais costumava se reunir para longos bate-papos regados rigorosamente a três doses de uísque, no máximo. Hoje, faz 75 anos que ele nasceu. Paulo Mendes Campos morreu aos 69 anos, em julho de 1991, mas continua sendo personagem obrigatório nas conversas sobre literatura, classificado como um dos cronistas e poetas mais talentosos da nossa história.
A minha ligação com a noite, hoje em dia, é meio folclórica, coisa do passado, disse, numa de suas últimas entrevistas. Ultimamente, tenho preferido as tardes.
Ele tornou-se conhecido do grande público por intermédio das crônicas publicadas na imprensa. Vendia seus trabalhos aos jornais e revistas e às editoras, para as quais também trabalhava como tradutor de prosadores e poetas, além de fazer incursões pela indústria cinematográfica. Há vários anos escrevo roteiros de jornais da tela e mil e outras coisas porque sei que o sonho de viver de literatura no Brasil não tem condições de ser realizado, dizia. O escritor aqui vive para ganhar o pão e o uísque de cada dia.
Bissexto Chamado de poeta bissexto, porque nunca publicou muito, Paulo Mendes Campos justificava-se, dizendo que evitava publicar poemas em demasia, em obediência a uma determinação juvenil e terrivelmente amadurecida, como às vezes acontece com decisões tomadas nessa fase da vida.
Mesmo tendo livros espalhados por diversas editoras, ele não entrou para o currículo escolar, como outros companheiros de sua geração. Para o crítico e jornalista Moacir Amâncio, se isso é uma falha, também representa uma vantagem para os contemporâneos - a possibilidade de descobrir, redescobrir, curtir e reconhecer a existência de outro grande poeta na literatura brasileira:
Ou seja, outra obra original num universo de nomes como Drummond, Bandeira, Quintana, Mário de andrade, Jorge de Lima, Murilo Mendes e Cecília Meirelles, para ficarmos neste século e País.
Com muito bom humor, ele traçou o roteiro sentimental, folclórico, geográfico e etílico dos boêmios cariocas dos anos 50 e 60, quando o Rio de Janeiro ainda era a capital federal. Em Os Bares Morrem Numa Quarta-feira, narra as façanhas, os casos e os porres de boêmios inveterados e personagens famosos, como Sérgio Porto, Vinícius de Moraes, Ari Barroso, Lamartine Babo, Di Cavalcanti, José Lins do Rego, Fernando Lobo, Haroldo Barbosa, Lúcio Rangel, Manuel Bandeira, Fernando Sabino e Otto Lara Resende - frequentadores assíduos do Pardellas, Vitorino, Jucas Bar, Alcazar, Recreio e da boate Vogue.
Na parede Paulo Mendes Campos lembra em suas crônicas que, durante essas reuniões, pintores como Djanira, Carlos Leão, Di Cavalcanti e Pancetti, entre outros, esboçavam seus projetos de novas telas em uma das paredes do bar que frequentavam, o Pardellas. Até que, numa véspera de fim de ano, um dos donos resolveu pintar a parede e mandou apagar todos os desenhos. Foi uma decepção total.
Segundo o cronista, quando o dono do bar percebeu a besteira que fez, tentou reparar o estrago e pediu a ele, Paulo, que chamasse de novo os pintores a fim de fazer novos desenhos nas paredes, em troca de generosas doses de uísque. Nada feito. Era tarde demais - explicou Paulo, numa de suas crônicas. Alguns já haviam morrido e os que estavam vivos não pintavam mais em troca de uísque de graça.
Ele escreveu
Domingo Azul no Mar (1958) - Editora Civilização Brasileira.
Transumanas (1977) - Editora Codecri.
Trinca de Copas (1984) - Editora Achimãe.
A Arte de Ser Neta (1985) - Editora Nacional.
Diário da Tarde (1985) - Editora Civilização Brasileira.
Poemas (1986) - Editora Civilização Brasileira.
Melhores Poemas (1990) - Editora Global
Crônicas Escolhidas (1981) - Editora Ática
Os Bares Morrem Numa Quarta-Feira (1980) - Editora Ática
Para Gostar de Ler (volumas 1 a 5), Editora Ática
Ele disse:
A poesia é algo mais especial. Se você não faz a sua, não é nada. Já a prosa é de todo mundo.
v
Nunca matei um só mosquito. Em contrapartida, não chegou a seduzir-me a mosca azul que sempre zumbiu naquele outeiro centralizador das políticas de Minas.
v
Poesia é a masturbação altamente espiritual de um sujeito.
v
A inspiração é algo tão boboca que me admiro de ver os críticos falando dela. Baboseira. Há, sim, uma acumulação mental de experiência e de fatos.
v
A crônica não é crônica. Um dia ela é conto. Outro dia ela é poema. Outro dia é uma piada. No fundo, crônica é uma página livre, onde o sujeito escreve o que quer.
Poema didático


