O cronista da dor
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de janeiro de 2010
Mariana Trigo<br> TV Press 
Manoel Carlos poderia ser um de seus personagens que contam histórias de superação. Afinal, em 1988, perdeu o filho Ricardo, aos 33 anos, vítima da Aids. Inspirado em seu drama pessoal, o autor passou a dissecar cada vez mais histórias com personagens que vencem os próprios limites da dor. Esse é o fio condutor de ''Viver a Vida'', trama das oito assinada pelo autor paulistano, dono de uma lúcida sensibilidade, refinada em seus 77 anos a serem completados em março. E, com toda a experiência, afirma: ''Felicidade não dá ibope. Felicidade é chato na televisão''.
Por que o trágico está tão presente em suas novelas?
Talvez essa novela seja realmente mais trágica que as outras. Mas acho natural, na medida em que você vê as circunstâncias em que aquela menina (Luciana, de Alinne Moraes), tão linda e com tantos planos de vida, fica tetraplégica. Isso é uma tragédia total na família de qualquer pessoa. Dizem que a novela está muito triste, mas a situação é trágica. Mas, nessa segunda fase, vou mostrar que nos acostumamos com tudo, até com a tragédia. Essa é uma novela de superação. Todos os personagens vão conseguir superar seus problemas.
Mas por que esses temas tão pesados atraem tanto você?
Gosto muito de lidar com os papos mais graves e dramáticos da vida. O drama é a casa ideal da dramaturgia. O drama é forte, mexe com as pessoas e você não esquece. A comédia, que é importante e dificílima de fazer, você assiste e tchau! Nem lembra no dia seguinte. Sem conflito não há drama, não há vida. Felicidade não dá ibope. Felicidade é chato na televisão.
Suas personagens femininas sempre ofuscaram os papéis masculinos e estão cada vez mais passionais. Por quê?
Alguns autores privilegiam sempre os homens e as mulheres são secundárias. As minhas histórias são exatamente o contrário. Faço novelas de mulheres. As pessoas riem na Globo, durante as gravações, porque meus cenários são sempre ''apartamento de Helena'', ''apartamento de Betina'', ''apartamento de Ingrid''. Nunca tem o nome do marido porque acho que a casa é das mulheres.
Isso se deve à criação matriarcal que você teve?
Muito! Fui criado mais pela minha mãe que meu pai, embora eles tenham vivido juntos até morrer, com quase 90 anos. Meu pai saía pela manhã e voltava na hora do jantar. Fui criado também por duas avós. Tenho duas irmãs mais velhas e muito mais primas que primos. Me casei com três mulheres. Tenho mais amigas que amigos. Tenho uma ligação muito fácil com as mulheres, me dou melhor com elas. Nunca gostei de falar de futebol, das coisas que homens gostam. Conheço melhor o universo feminino que o masculino. Isso se reflete no meu trabalho.
Nessa novela você recebeu críticas pela escalação da Taís Araújo como Helena e pela falta de ''química'' desse casal protagonista: ela com o Marcos, do José Mayer. Como você avalia a aceitação desses personagens?
Estou muito feliz com a Taís como Helena. Se o casal não combina, também não combinam os casais que tenho visto de top models com milionários. As modelos vivem namorando com os paulistas cheios de dinheiro. São todos homens mais velhos, ricos, com helicópteros, carros de corrida. Eles vivem andando pela Europa e Estados Unidos, com elas para lá e para cá. Estou retratando algo assim, não um amor de jovens, adolescentes, mas um romance entre um homem de mais de 50 anos por uma moça linda, de sucesso, que não precisa do dinheiro dele e que se encantou com aquele homem cortejador, que a mima e atende seus pedidos. Eles casaram-se apressadamente, acho tudo isso possível.
Você estava com planos de parar de fazer novelas e só escrever minisséries e projetos especiais na Globo. Por quê?
Não quero mais fazer novelas, nada longo. Me sinto com saúde, mas é muito custoso. Estou com a vista muito prejudicada, a coluna doendo, faço fisioterapia praticamente todos os dias porque fico sentado durante muito tempo escrevendo a novela. Quero fazer apenas séries, seriados, especiais.
Sua próxima minissérie é baseada num romance idêntico a ''Madame Bovary'', de Gustave Flaubert. Como vai ser essa adaptação?
Quero fazer a adaptação do romance ''Vale Abraão'', da escritora Agustina Bessa-Luís, uma das maiores escritoras portuguesas vivas. O livro se passa num vale que existe entre duas cidades portuguesas, onde há um pequeno vilarejo. É mesmo como a história de ''Madame Bovary'', passada em Portugal nos dias de hoje.
Mais uma mulher forte com conflitos...
(Risos) É só isso que me interessa. Essa mulher trai o marido com um amante numa província portuguesa, que é o equivalente à Paris em meados do Século XIX, época em que Flaubert situou o romance. Tanto insisti com a escritora e com esse projeto, que a Globo comprou por 10 anos. Quero fazer essa macrossérie, que não chega a ser uma novela. É um projeto de 40, 50 capítulos. Espero fazer essa minissérie em 2011 ou 2012. Esse é meu sonho de fim de carreira em tevê.


