Compor as músicas, mesmo morando em celas diferentes, até que foi fácil. A parte complicada foi gravar um CD de 11 músicas sem sair uma única vez do Carandiru. Pois o grupo Detentos do Rap conseguiu esse feito e seu CD de estréia, ‘‘Apologia ao Crime’’, será lançado pela gravadora Fieldzz nessa segunda-feira.
A música de trabalho, ‘‘Casa Cheia’’, tem o refrão: ‘‘O Carandiru está de casa cheia. Muita maldade no ar, muita droga na veia’’. O grupo é formado por cinco rapazes do Pavilhão 5 da Casa de Detenção. Daniel Sancy, 21, com cinco anos a cumprir, é o vocalista. Ronaldo da Silva, Eduardo Fonseca e Marcos José dos Santos, todos com 23 anos, fazem o refrão.
O quinto integrante, Leonardo Lopes Cruz, 27, é uma espécie de empresário para questões internas da Detenção. O que isso significa, nem eles sabem explicar. ‘‘Eles têm a lei deles, nós temos a nossa. Preferi não interferir’’, explica Iraí Campos, 38, o diretor da Fieldzz, que descobriu a banda e produziu o CD. Por via das dúvidas, para a capa do disco, Campos escolheu uma foto apenas com os quatro primeiros.
A gravação de ‘‘Apologia ao Crime’’ exigiu um processo inédito. Sentindo dificuldades para retirar os presos e levá-los para um estúdio, Campos resolveu levar o estúdio para o Carandiru.
Em primeiro lugar, o diretor gravou as vozes em um equipamento amador. Para guiar os músicos, apenas uma bateria eletrônica. ‘‘Joguei as vozes no computador e chamei dois produtores, DJ Easy Nylon e Luciano, para criar as bases das músicas.’’
Em seguida, mandou ao grupo um CD apenas com as bases, sem vozes. ‘‘Dei também um aparelho de CD portátil para eles poderem ouvir e ensaiar por 15 dias.’’ Faltava apenas gravar as vozes com equipamento profissional. Campos conseguiu autorização para ocupar por alguns dias o escritório onde advogados conversam com os presos. Tirou as mesas e tampou a janela com um bloco de espuma para isolar o som.
Armou o microfone num canto da sala e colou em volta mais blocos da mesma espuma. Por último, trouxe um caminhão com um estúdio móvel na carroceria, ligou cabos e mais cabos até o escritório e gravou as vozes em dois dias. O uso do equipamento custou R$ 8 mil. Depois foi só juntar as bases com as vozes e imprimir o CD.
A banda não deve fazer shows, pelo menos até que alguns integrantes sejam libertados.

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