Film noir é, literalmente, ‘‘filme negro’’, denominação dada pelos críticos franceses Godard, Truffaut, Chabrol às produções americanas com temas e formas sombrios, escuros, dramas criminais e filmes de detetives lançados na França no imediato pós-guerra. Os títulos mais clássicos do gênero saíram dos estúdios durante e logo após a Segunda Guerra Mundial, em evidente manobra de marketing visando extrair das bilheterias toda a carga de ansiedade que impregnava a população naquele momento. O elemento do crime no film noir é sintoma metafórico dos males sociais, temperados pela forte presença de conflitos morais. E se prevalecer o sentido estrito, film noir não é propriamente um gênero mas um clima, uma atmosfera, um tom. Na verdade, um sub-gênero, um braço autônomo do filme de gangster.
O procedimento básico de um film noir clássico pressupõe melancolia, alienação, desilusão, desencanto, pessimismo, ambiguidade, corrupção moral, o mal, a culpa e a paranoia. Os heróis (ou anti-heróis), personagens corruptos e vilões incluem detetives fracassados, policiais, gangsters, ladrões, gente do governo, veteranos de guerra, criminosos insignificantes e assassinos. Estes protagonistas geralmente vivem existências rasteiras, no mais baixo submundo adubado por crime e corrupção. Como características adicionais, são também cínicos, obsessivos (sexuais ou outra coisa qualquer), sinistros, sardônicos, assustados e inseguros. Perdedores, sempre, de uma forma ou de outra. Lutando para sobreviver mas invariavelmente perdendo.
As mulheres, elementos vitais no film noir, aparecem de duas formas. O tipo zelozo, obediente, dependente, confiável e amoroso. E as decantadas femme fatales - dúbias, traidoras, esplêndidas, predadoras, suaves, irresponsáveis, manipuladoras e desesperadas.
Em geral, o personagem masculino é levado a uma escolha inevitável entre
elas - e invariavelmente fica com a femme fatale. Estes seres tristes, fatalistas circulam em ruas escuras, apartamentos sujos e minúsculos e quartos de hotel de grandes cidades, ou estão entrando ou saindo da carros. Os argumentos são frequentemente complexos, cheios de alternâncias, não raro recheados de flashbacks, com uma narrativa em off. O modelo, claro, são as origens literárias apoiadas numa trindade irretocável: Dashiell Hammett, Raymond Chandler e James Cain, os dois primeiros pais do ‘‘private eye’’ durão e desencantado, estilo Bogart. E o último criador das melhores femme fatales.
Mas tudo isso não ficaria completo sem uma forma definida em seus limites. O estilo visual do film noir é marcado por uma iluminação (preto e branco e cinza) expressionista - reminiscência das raízes no Expressionismo Alemão dos anos 20 e 30, em filmes como ‘‘O Cabinete do Dr. Caligari’’ (19) e ‘‘M, o Vampiro de Dusseldorf’’ (31). O planejamento visual dos planos via de regra usa e abusa do jogo de sombras. O close é outra constante, sobre rostos ou objetos, e a câmera busca ângulos, inclinações e movimentos pouco frequentes.(C.E.L.J.)

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