O Criador e a criatura
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local
Um Cristo liberto, restaurado, de braços abertos e em seu formato original poderá ser conferido a partir de hoje no Centro Socioeducativo Turístico e Cultural - Auditório Pioneiros (ao lado da antiga Estação Ferroviária), em Ibiporã. Após uma verdadeira 'via crucis' - envolta em uma série de polêmicas e mal-entendidos - finalmente a obra "Cristo Libertador", do artista plástico Henrique de Aragão, ganha o devido lugar de destaque, não mais em um espaço sacro, mas aberto ao público em geral. A solenidade de entrega da obra será realizada hoje, às 20h30, quando será exibido um vídeo e entregue um material impresso sobre história da obra de arte.
Confeccionada sob encomenda pelo então bispo de Apucarana Dom Romeu Alberti para ornamentar o altar da Igreja Matriz Nossa Senhora Auxiliadora de Colorado (83 km de Maringá), em 1975, a obra com quase cinco metros de altura, feita em aço e latão, mostra um Cristo ressuscitado nu, livre de correntes, com um sol estilizado na parte posterior (simbolizando a figura de Deus Pai) e, na parte frontal, um pássaro, representando a figura do Espírito Santo, de 2 metros de envergadura, que encobre a genitália da figura humana de Cristo. Após ser abençoado pelo padre local, tudo transcorreu bem por cerca de 15 anos, quando o pároco substituto se sentiu pessoalmente incomodado com a obra e pediu que fosse colocada na parte do coro da igreja.
No novo espaço, a polêmica começou a ganhar peso chegando ao ponto da obra ser transferida para o Museu Histórico e depois para a Universidade Estadual de Londrina, em 1984, onde ficou exposta na rotatória do Centro de Ciências Humanas até meados de 2006, quando foi retirada e colocada em um depósito da universidade sob a alegação de que uma instituição laica não deveria expor imagens religiosas. Há dois anos, a Secretaria de Cultura de Ibiporã solicitou a doação da obra para que pudesse integrar o projeto de Museu de Esculturas. O processo de restauração contou com o investimento de R$ 20 mil da Prefeitura de Ibiporã, além de doações de alguns materiais por parte da Furgões Ibiporã. "Foi uma verdadeira força-tarefa para trazer essa obra de arte para cá. A nossa intenção é que finalmente ela possa ser admirada pelos nossos alunos e visitantes", afirma o secretário municipal de Cultura e Turismo de Ibiporã, Julio Dutra.
Vida de artista
Natural de Campina Grande (PB), Henrique de Aragão veio para o Paraná em 1965, a convite do bispo de Apucarana, Dom Romeu Alberti, mudando-se para Ibiporã em 1967. Aos 83 anos, na casa onde também funciona seu ateliê e uma espécie de museu, ele ainda mantém o brilho no olhar quando lembra da sua infância, onde gostava de observar os desenhos esculpidos nas rochas pelas águas dos riachos e desenhar com giz, carvão e pedaços de telha em qualquer lugar que fosse possível, inclusive nos muros dos vizinhos, que nem sempre compreendiam suas "manifestações artísticas". Lembra com nitidez de um momento de verdadeira epifania, num desses dias de observação da natureza, que o marcou para a vida inteira: ficou claro que a sua forma de ver o mundo era através da arte. "Sempre fui apaixonado pela harmonia, a beleza e a justiça mesmo quando ainda não sabia muito bem o que era isso", comenta.
Relação com o sagrado
Dono de uma relação íntima e pessoal com o sagrado, Aragão afirma que nunca foi sua intenção causar polêmica com suas obras sacras, já que para ele o nu nada mais é do que a representação do corpo humano. "A polêmica é gratuita, sem sentido e aconteceu devido ao moralismo das pessoas, aos pudores delas. A obra vai além disso e sempre fiz tudo com muito amor, aliás, é esse sentimento que me move em tudo que faço. O artista é como um pai que depois que cria o filho não tem mais poder sobre ele; quando a obra está pronta, ela se torna pública e não temos mais controle sobre ela", admite. "De qualquer forma, estou feliz que ela vai ser instalada em Ibiporã. Estou em paz com relação a isso e espero que a polêmica acabe aqui. No discurso que estou preparando para a solenidade de inauguração, pretendo pedir perdão a Cristo pelos erros dos outros", destaca o artista, que fez questão de ser fotografado aos pés de Cristo.
Legado histórico
Há seis anos passando por tratamento de câncer, Henrique Aragão teve o seu ateliê arrombado quatro vezes só nesse mês. Com o intuito de dar apoio ao artista e garantir mais segurança para o seu patrimônio artístico e cultural, um grupo de amigos e familiares agendou uma reunião para o próximo sábado para tomar as devidas providências.
SERVIÇO
Inauguração obra "Cristo Libertador"
Quando Hoje, às 10h30
Onde - Centro Socioeducativo Turístico e Cultural - Auditório Pioneiros (ao lado da antiga Estação Ferroviária), em Ibiporã