O primeiro Leão de Ouro da 57ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica de Veneza foi entregue ontem à noite, durante a abertura de gala na Sala Grande. Introduzida à cena pela apresentadora, a atriz Chiara Caselli, a diva Sharon Stone passou às mãos de Clint Eastwood (leia matéria nesta página) o prêmio em reconhecimento aos 45 anos de carreira do ator-produtor-diretor. Antes da homenagem foi exibida uma antologia de cenas de muitos dos 22 filmes que ele dirigiu, e em seguida seu longa mais recente, ‘‘Cowboys do Espaço’’, título brasileiro já definido pela Warner mas ainda sem data de lançamento no Brasil. A apresentação foi da atriz Chiara Caselli. Com a entrega do prêmio, Sharon Stone cumpriu 50 por cento de suas obrigações venezianas. Hoje à noite ela é a hostess do jantar beneficente que arrecada fundos para pesquisas no combate à Aids. Para poucos e muito ricos, com disponibilidade para sacar mil dólares - per capita - a título de adesão.
Na coletiva de abertura da mostra, o presidente da Biennale, Paolo Barata, e o diretor do festival, Alberto Barbera, cumpriram o ritual burocrático de apresentação do evento. De relevante, Barbera leu a carta que Martin Scorsese encaminhou de última hora à organização. O diretor não exibe mais aqui fora de concurso, no dia 8, o documentário completo ‘‘Il Mio Viaggio in Italia’’, título que rebatizou o projeto ‘‘Il Dolce Cinema’’. Ano passado, Scorsese mostrou no encerramento do festival o resultado da primeira hora e meia da compilação que fez de grandes momentos do melhor cinema italiano, segundo ele influência capital em sua filmografia e de resto na de boa parte dos realizadores contemporâneos. No texto, Scorsese lamenta o inconveniente e debita a ausência do filme a problemas técnicos no momento insolúveis, dada a natureza delicada da recuperação de matrizes.
Na sequência de entrevistas, sala completamente tomada por algumas centenas de jornalistas à espera de Clint e sua tripulação de ‘‘Space Cowboys’’ - James Garner, Tommy Lee Jones e Donald Sutherland. O filme, puro escapismo competente (leia crítica nesta página), está aqui ‘‘hors concours’’, e só se justifica como carro-chefe da mostra por causa da honraria ao veterano homem de cinema. Durante a conversa, por cerca de meia hora, todos muito elegantes, comportados e profissionais. E evasivos, diante de perguntas que também não tinham muito a ver. Idade, carreira, política, cinema: temas óbvios para respostas periféricas, sem nenhum momento de brilho, sem rasgos de espírito. Clint tem generosa legião de admiradores europeus, entre público e imprensa especializada - quase na mesma proporção, é bom que se diga. A afirmativa, evidentemente simbólica, serve para traduzir a adesão via de regra entusiamada da crítica ao trabalho dele, principalmente como diretor .
O Brasil fez sua primeria aparição ontem no festival. Na mostra paralela não competitiva ‘‘Sogni e Visioni’’, a dupla Paulo Caldas/Marcelo Luna mostrou na acanhada Sala Volpi o documentário ‘‘O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas’’, visão radical da violência florescente nos anéis de desintegração das megalópoles brasileiras - Recife como referência concreta ilustrando o todo simbólico. Bom público, reação positiva diante de uma obra original. E hoje tem Lima Duarte estreando na seção competitiva com ‘‘Palavra e Utopia’’, do veteraníssimo Manoel de Oliveira (92 anos). No representante de Portugal, Lima faz o padre Antonio Vieira, e o próprio Manoel de Oliveira diz ser ‘‘o filme da minha vida’’.

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