O cotidiano sem meias palavras
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de abril de 1999
Paulo Briguet 
O estúpido sentiu-se desrespeitado pela balconista que lhe pedia educadamente para não gritar. Ele respondeu à moça, sem se dar ao trabalho de encará-la:
- Eu grito quanto quiser. Paguei para você me atender e não tenho nada a ver com a tua vida dura.
Vi a cena há algumas semanas. O estúpido continuou gritando, ferindo os tímpanos das pessoas, inclusive os da balconista. Considerava-se no direito de fazê-lo.
O cotidiano é embrutecedor. Se não tomarmos cuidado, a brutalidade toma conta de alma. A rotina vai anestesiando as contrariedades, os golpes, a memória e os sentimentos empoeirados. Por fim, a inteligência adormece, e sonha-se transformada em mandíbulas. A partir desse ponto, nem sequer nos lembraremos de levar em conta a existência dos outros. Gritaremos para obter comida, água, sono, sexo, atenção, dinheiro. Repetiremos: Não tenho nada a ver com a tua vida dura.


