O espetáculo ‘‘A + B = X’’, do grupo inglês de Gilles Jobin que está em cartaz no Filo, provoca um inevitável questionamento sobre o que é dança e quão infinitas são as possibilidades de utilização do corpo humano pela arte, na busca de expressar as mais obliteradas sensações.
Nascido na Suíça, Gilles desenvolve seu trabalho em Londres, onde convive com diferentes correntes artísticas contemporâneas. A coreografia de Gilles Jobin é provocativa desde o título, onde propõe um equação simples, tendo o corpo humano como o ‘‘x’’ da questão: o corpo pode ser apenas a superfície onde se projeta imagens filmadas em super-8 ou a máquina perfeita com seus 660 músculos em atividade, mesmo que o bailarino permaneça estático no palco.
Em se tratando de dança, um corpo parado nunca é só um corpo parado: É uma fornalha com sua ampla consistência líquida em ebulição. Com a respiração acelerada, o sangue fervendo nas veias e, com inestimáveis doses de excitação, força, equilíbrio e tensão, o corpo encontra-se em pleno vôo mesmo que aparente uma mola encolhida. Um corpo parado no palco é o próprio ofício do bailarino, e nele estão todos os limites e desafios que precisam ser ultrapassados.
Gilles fornece um movimento intimista, que precisa ser sentido mais que percebido. A seu modo, busca estabelecer com a platéia uma cumplicidade que complementa sua criação. Enquanto normalmente o coreógrafo cria movimentos para expressarem uma idéia de antemão, Gilles busca imprimir no palco formas corpóreas que estejam prenhes de significados. A interpretação é absolutamente pessoal, cada um vê o que quer, emprestando seu próprio imaginário ao que se passa no espetáculo.
Mesmo quando a coreografia apresenta certa continuidade, o que se percebe é uma espécie de desmontagem, mostrando quadro a quadro, a sequências inteiras de um movimento. Assim, um trecho que dançado em ritmo normal não levaria mais que alguns segundos, na concepção de Gilles desenrola-se lentamente, exigindo um grau de esforço físico muito grande do bailarino.
A dança de Gilles Jobin é um ponto de convergência e de intersecção de outras artes, como o cinema, a tatuagem, o vídeo, a instalação etc. Em ‘‘A + B = X’’ o coreógrafo brinca e instiga em torno do mesmo tema: o corpo e as formas de usá-lo. Mesmo quando serve como tela de cinema, é projetado sobre si outro corpo todo tatuado, tornando-o um out door de signos e símbolos. É evidente a influência das artes plásticas. Há em sua dança uma preocupação estética com a cor, os corpos desenham formas bem definidas ou simplesmente interferem com seu conteúdo conceitual. Por isso ‘‘A + B = X’’ poderia ser apresentada em eventos como a Bienal de São Paulo ou a Documenta de Kassel.
O coreógrafo admite também a influência do butô japonês, uma das formas de dança que mais o impressionam, com sua economia de movimentos e profusão expressiva. Já a maneira como dispõe os movimentos isolados, é uma referência ao coreógrafo e pesquisador americano Merce Cunningham, para quem o corpo do bailarino já é ‘‘proposta e indagação’’ ao mesmo tempo.
A música em ‘‘A + B = X’’ ajuda a compor um ambiente propício para a experimentação da platéia, não tem a função orgânica de embalar os corpos em movimento. Ela funciona quase que em paralelo, vai ao acaso, criando uma relação simbiótica com a coreografia. Também a trilha sonora busca um resultado plástico, conferindo uma certa cor e textura musical ao espetáculo.

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