A magia do ator ao entrar em cena e expressar uma emoção é única. Mas pode ser alcançada de diversas maneiras e cada ator tem seu método. A carioca Maria Pia Scognamiglio está em Londrina aplicando o método ‘‘dramaturgia corporal’’, que consiste em desenvolver um trabalho coordenado de interpretação e movimentação em cena através do condicionamento da musculatura do corpo. E, para testar o método, nada melhor que um grupo de atores.
Bailarina e terapeuta corporal, Maria Pia está coordenando o segundo módulo da oficina voltada a atores nikkeys selecionados para o elenco do filme ‘‘Gaijin II’’, de Tizuka Yamasaki, com quem trabalha há 10 anos.
Segundo a preparadora de elenco, a ‘‘dramaturgia corporal’’ é um método de interpretação no qual a pessoa usa os músculos para acionar os sentimentos. ‘‘Tracei uma geografia do corpo humano, na qual cada região está ligada a uma emoção, ou seja, a emoção está ligada a músculos’’, conta.
Maria Pia explica que o método ‘‘dramaturgia corporal’’ não somente ativa a emoção como também a prepara espacialmente no corpo. Assim, as emoções espalhadas pelo corpo podem ser acionadas pela respiração. ‘‘Aqui no peito, onde a gente bate para dizer ‘eu’, estão todas as emoções que dizem respeito a nós: a amizade, a ternura, o amor’’, ensina.
Já na região do abdômen, a qual ela chama de território base, concentram-se a raiva, ódio, ciúme, tesão, inveja, conhecidos como sentimentos vermelhos. A racionalidade, a paz, a harmonia e a justiça estão, por sua vez, localizadas na região do topo da cabeça. ‘‘É só saber de onde vem a emoção e colocar o ar no território certo. Chamo isso de teclado emocional. É como se a pessoa engolisse um teclado e apertasse as teclas certas nos momentos certos’’, observa.
A terapeuta avalia que emocionar-se na vida real é bem diferente de fazer isso diante de uma câmera. ‘‘Pode ser que ao buscar a emoção na memória afetiva ou esperar que ela venha por si, o ator fique na mão. De frente com as câmeras a pessoa tem que se emocionar não só da pele para dentro. Por isso a técnica é importante’’, reflete.
Para Maria Pia, o bom ator tem que ter a mistura de coração e palpabilidade. ‘‘O ator que não tem os dois lados é capenga. A pessoa não pode estar emocionada só para ela, tem que expressar essa emoção’’, avisa. Por isso, o grande ator é aquele que tem a capacidade de tirar o público de um estado de consciência e colocar em outro. ‘‘Os canastrões tocam a cabeça e a gente não sente com a cabeça. Eles tiram a raiva do abdômen, por exemplo, e jogam para o peito, ficando aquela interpretação falsa, exagerada.’’
Maria Pia avalia que o ator tem que aprender a dividir o pensar (cabeça) e sentir (coração). ‘‘A cabeça não pode emocionar ninguém. Por isso não gosto do ator ‘sujo’, aquele que é descontrolado, que usa cacos, que esbarra no cenário e em outros atores’’, analisa.
Num trabalho que mistura teatro, neuroanatomia e técnicas orientais, Maria Pia diz pensar o artista no século 21, ou seja, aquele que não trabalha com emoção, mas com energia. ‘‘Nós ficamos tão cerebrais que achamos que precisamos entender para depois sentir. E não é assim. Existe uma ‘mexicanização’ do sentimento. E não é preciso isso para se emocionar. O que bate no coração é o sentimento puro’’, defende.
Outro alerta da dramaturga corporal é que os músculos não são feitos só para a pessoa malhar. ‘‘Eles são as molas da expressão. O que acontece é que nós separamos o nosso corpo em vários corpos e assim levamos cada parte dele para um lugar (a cabeça para o psicanalista, o bumbum para a academia...) O corpo é um só. Esse é um novo pensamento somático’’, finaliza.
A oficina de Maria Pia Scognamiglio é promovida pelo grupo Sansey, que conseguiu apoio através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, e também faz parte de uma comissão encarregada de divulgar as ações do filme e captar recursos. A médica Evelyn Muraguchi, integrante do grupo, conta que a captação já começou e algumas empresas estão fechando apoio através da Lei do Audiovisual. ‘‘A meta de arrecadação é R$ 8 milhões e a intenção é começar a rodar em setembro do ano quem vem’’, antecipa Evelyn.

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