O corpo necessita ser vestido. Seja através de tecidos ou de tijolo. As roupas e as casas são uma espécie de segunda pele dos homens e, em algumas situações, podem dizer mais que a própria pele. É possível abordar uma história das vestimentas a partir do contexto histórico em que o corpo está inserido. Também pode-se abordar a história da cidade partindo das relações que os homens travaram com o próprio corpo. Esta última questão é o tema de estudo do pesquisador Richard Sennett no livro ‘‘Carne e Pedra - O Corpo e a Cidade na Civilização Ocidental’’ lançado pela Editora Record.
Richard Sennett define a obra de maneira clara: ‘‘Carne e Pedra é a história da cidade contada através da experiência corporal do povo: como mulheres e homens se moviam, o que viam e ouviam, os odores que atingiam suas narinas, onde comiam, seus hábitos de vestir, de banhar-se e de que forma faziam amor, desde a Atenas antiga a Nova York. Embora esse livro tome o corpo das pessoas como referência para entender o passado, ele é mais do que um catálogo histórico das sensações físicas no espaço urbano.
‘‘A civilização ocidental não tem respeitado a dignidade dos corpos humanos e a sua diversidade; procurei compreender como as questões do corpo foram expressas na arquitetura, no urbanismo e na vida cotidiana.’’- diz ele. O ponto de partida de ‘‘Carne e Pedra’’ são os costumes dos habitantes da antiga Atenas, onde os corpos masculinos transitavam nus. Era uma exposição estimulada, simbolizando a autoconfiança e liberdade dos atenienses. Sennett aponta como esse ideal físico masculino construiu disfunções nas relações entre homens e mulheres, seja no uso do espaço urbano ou na prática da democracia da época.
Em seguida o pesquisador focaliza Roma no período em que o imperador Adriano construiu o famoso Panthenon. Os habitantes de Roma mantinham uma forte crença na geometria do corpo e essa fé foi traduzida numa concepção urbanística. Durante a Idade Média a concepção de que os cristãos deveriam passar pelos sofrimentos físicos da crucificação de Cristo ergueram santuários desconfortáveis para materializar o suplício.
A descobertas de novos conhecimentos científicos tiveram uma importante papel nas novas maneiras de concepção do espaço. Quando Harvey publicou seu tratado, no século 17, em que elucidava o sistema circulatório humano, as experiências de livre locomoção dentro das cidades ganharam grandes proporções. Até nos dias atuais, com as ruas de mão única e avenidas de mão dupla, seguem o desenho da correntes sanguínea. Os tráfegos específicos em veias e artérias, o movimento fluindo como uma suposta liberdade de locomoção.
Para Sennett, que foi companheiro de estudo de Michael Foucault, ao mesmo tempo que a cidade se constituiu como uma promessa de paraíso, esta mesma promessa é quebrada pela própria cidade: ‘‘A cidade tem sido um lugar de poder, cujos espaços tornam-se coerentes e completos à imagem do próprio homem. Mas também foi nelas que essas imagens se estilhaçaram, no contexto de agrupamento de pessoas diferentes - fator de intensificação da complexidade social - e que se apresentam umas às outras como estranhas. Todos estes aspectos da experiência urbana - diferença, complexidade, estranheza - sustentam a resistência à dominação. Essa geografia urbana, difícil e surpreendente, é que nos acena como uma promessa específica, baseada em valores morais, e pode abrigar os que se sentem como exilados do paraíso.’’
Outros livrosOutros dois livros publicados pela Editora Record também enfocam a temática urbana: ‘‘Casa - Pequena História de um Idéia’’ e ‘‘Vida nas Cidades - Expectativas Urbanas no Novo Mundo’’, ambos escritos pelo professor e arquiteto escocês Witold Rybczynski.
Em ‘‘Casa - Pequena História de uma Idéia’’ Rybczynski navega através dos últimos cinco séculos para traçar a história deste lugar para onde nos recolhemos todos os dias. Analisa como as mudanças culturais e sociais de várias épocas determinaram a arquitetura, o mobiliário e os estilos de decorações. Como também o convívio social foi alterado de acordo com a criação de objetos domésticos, das cadeiras à luz elétrica.
‘‘Vida nas Cidades’’ aborda o nascimento e crescimento das principais metrópoles dos Estados Unidos e do Canadá. A relação dos habitantes destas metrópoles com as novas complexidades urbanas e a inovações tecnológicas modificaram suas expectativas de cidade, segundo Rybczynski. Ao mesmo tempo mostra que as cidades são moldadas pelo estilo de vida de seus habitantes além da paisagem natural.
q‘‘Carne e Pedra - O Corpo e a Cidade na Civilização Ocidental’’ de Richard Sennett, Editora Record, tradução de Marcos Aarão Reis, 262 páginas, R$ 39,00.
‘‘Casa - Pequena História de uma Idéia’’, de Witold Rybczynski, Editora Record, tradução de Betina Von Staa, 260 páginas, R$ 28,00.
‘‘Vida nas Cidades - Expectativas Urbanas no Novo Mundo’’ de Witold Rybczynski, tradução de Betina Von Staa, 258 páginas, R$ 28,00/Livraria Rosa do Povo.

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